Entre o consumo e a vaidade


Era para ser apenas a saída de casa até a cancha de futebol de sete. Além do fardamento, levava poucos reais, um celular e calçava um par de tênis no valor aproximado de R$ 300 reais. Foi o suficiente: no assalto, os ladrões queriam tudo, entregou parte, mas se negou a tirar os tênis. Bastou para ser morto e ficar sem os calçados preferidos. Infelizmente, o que deveria se constituir num crime absurdo e chocar a sociedade virou “acidente de percurso” onde, em muitos casos, se é capaz de culpar a vítima por não ter cedido. O que representa um par de tênis deste ou de algum valor superior? Na verdade, é um calçado de marca e representa status para quem o tem e a falta dele para quem quer tomar à força o que não consegue conquistar por conta própria.

Semana passada, uma rede de televisão transmitiu programa especial a respeito de uma nova era para Cuba, pequeno país que, historicamente, faz cócegas nos pés dos Estados Unidos. A repórter dizia textualmente: “os cubanos que chegam aos Estados Unidos conquistam a liberdade, especialmente de poder comprar tudo o que querem”. Triste liberdade que almeja tão pouco, apenas a capacidade de consumo! Mas, enquanto os cubanos têm, por lei, direito à nacionalidade e a um emprego tão logo escapem da ilha, hordas de pessoas do mundo inteiro – inclusive brasileiros – tentam entrar naquele país sem a mesma sorte, pois, em muitos casos, são presos, condenados e, quando têm sorte, extraditados.

Quando se fala em valores que estão sendo trocados, para pior, infelizmente, este é um deles, pois o consumismo transformou-se no sonho da maior parte dos jovens. Construir uma vida com uma carreira, descobrindo referências, especialmente nas relações, passou a ser supérfluo diante do que se quer imediatamente: ter. Ter carro ou moto, dinheiro, oportunidades infindas, profissão que não exija muito, apartamento já mobiliado para iniciar a vida, etc. Dizer que isto, há pouco tempo atrás, era conquistado com o próprio suor e que levava muito tempo, hoje, não interessa. Um bom “paitrocínio” deveria se encarregar de que isto fosse “o mínimo necessário” para deslanchar a vida!

Infelizmente, sob fogo cerrado da mídia que induz valores consumistas e hedonistas, pais e educadores vão se sentindo de mãos atadas diante da realidade. Mas não dá para desistir: entre uma conversa e outra, concessões e negativas, acertos e erros, podemos vacinar nossos filhos e alunos para que encontrem seus próprios caminhos. Especialmente longe dos cartões de crédito.