Entre a doença e a saúde


Fico cheio de cuidados ao tratar problemas de saúde enfrentados por parentes ou amigos. No geral, vale uma regra de ouro: fala-se em doença com alguém que enfrenta problemas apenas quando a pessoa inicia. Se não for assim, o melhor é achar outro assunto. Infelizmente vejo que muitos não têm esta sensibilidade e, além de querer detalhes – muitas vezes mórbidos – ainda remexem na ferida lembrando casos parecidos, passados por conhecidos ou familiares.

Tenho três amigas enfrentado uma das doenças que, ainda hoje, se tem dificuldade em nomear e que, para pessoas mais simples, a impressão que fica é de que apenas a enunciação é capaz de contaminar: o câncer. Felizmente, o avanço do seu tratamento tem evitado que o simples diagnóstico constitua uma sentença de morte. Não se pode negar que as pessoas que o enfrentam têm momentos de dúvida e de angústia, especialmente quando sentem que o próprio tratamento e a reação de seu organismo parecem indicar que o previsto não vai se realizar e tudo vai acabar dando errado.

É exatamente aí que sempre aparecem “almas conselheiras”. Não sei, neste instante, qual é a pior companhia: se a que prega um espírito “oba oba!”, em que tudo é festa, ou a que se torna chata por exagerar na utilização de credos religiosos e, em muitos casos, da superstição.

A fragilidade de quem sabe que seu corpo não está funcionando bem e que pode ter que prestar contas ao Criador já é um incentivo para recuperar reflexões e práticas de fé muitas vezes esquecidas. Feita por decisão própria, sem os exageros dos que se anestesiam na religiosidade, serve como bálsamo, suavizando a necessidade de viver um dia a dia estressante, e como um mecanismo para enfrentar (e não para fugir) os problemas.

Tenho tido uma lição de vida cada vez que encontro minhas amigas. Todas elas vacilaram em algum momento; todas elas tiveram seus instantes de dúvidas; todas elas pensaram que o sofrimento enfrentado, em algumas passagens, parecia ser pior do que a própria morte (outra das palavras estigmatizadas).

No entanto, a carinhosa presença e testemunho de amigos (e não de pregadores para conversões rápidas e fáceis) foram a mão e o abraço oferecidos que incentivaram a não desistir da caminhada. Entre a doença e a saúde, optaram pela vida, certas de que ainda enfrentarão outros problemas. Mas também certas de que, diante deles, nunca mais estarão sozinhas.