Espiando pela televisão


Em diversas ocasiões fui convidado a participar de programas de rádio em que a pauta era os “reality shows”, do tipo Big Brother Brasil, da Rede Globo de Televisão, e Casa dos Artistas, do Sistema Brasileiro de Televisão – SBT. Além de outros menos conhecidos de redes nacionais e internacionais, que acabam colocando seus participantes em situações exóticas, muitas vezes apelativas, atendendo a uma pretensa necessidade que a audiência tem de espiar para dentro de uma casa.

Quase sempre, existe a tentativa de se entender porque as pessoas gastam seu tempo diante da televisão para, autorizadas, invadir a privacidade e ver o que está acontecendo dentro de uma casa onde pessoas criam situações que podem levá-las a permanecer ou serem retiradas do jogo. Sim, porque é um jogo, um jogo em que a astúcia (e não a inteligência) é que pode favorecer a um ou a outro, levando-o a uma final em que um superprêmio está em disputa.

Quando estes programas estão no ar, pautam a discussão de praticamente todas as rodas. Desbancam temas clássicos do nosso cotidiano, como política e futebol (os homens dirão: “e mulheres”; as mulheres pensarão: “e homens”) e nomes que até pouco tempo eram desconhecidos, são tratados com familiaridade. Neste caso, os integrantes alcançam, meteoricamente, a fama, a celebridade.

Os idealizadores deste tipo de espetáculo sabem que somos movidos por um “voyerismo”. Há uma tentação latente, quase instintiva, em tentar visualizar a privacidade. Num dos programas, alguém chegou a dizer que uma janela escancarada não desperta atenção, porque pode ser vista, embora de forma rápida. Mas uma janela semifechada é uma tentação absoluta. Como diriam os gaúchos, um convite a que se dê uma boa “fresteada”.

Pois a teoria do “frestear” é o que explica a popularidade deste programas. A curiosidade a respeito da vida alheia está em nosso sangue e desperta sentimentos que podem ir da absoluta solidariedade ao ódio quase irracional. É no que seus produtores apostam para ter retorno da audiência.

Forma de entretenimento, ou exploração dos nossos instintos básicos? Possivelmente as duas. Em tempos de absoluta carência de valores maiores, o apelativo fala mais alto. E é pena. Acho que valeria a pena voltar a falar de futebol, política e ...