"De Laboris Solis"

Eu estava lá

Monica Abeid


Sentada no chão sobre um plástico para me proteger do chão úmido da chuva que caíra na noite anterior, com o guarda-chuva aberto porque começava novamente a cair uma chuva leve, eu só podia ver à minha frente os pés dos peregrinos que passavam em fila a procura de um lugar o mais próximo possível do altar da missa que seria celebrada por João Paulo II. Pelo estado dos sapatos eu podia adivinhar quem acabara de chegar e quem fizera a vigília porque o lodo misturado a uma palha de grama seca era a marca daqueles que já há dias dormiam por lá em barracas de todo o tipo. Nas minhas costas um arranjo com plásticos e cobertores abrigava um sem números de pessoas que dormiam alheias à confusão. Era cedo, seis da manhã, e a missa só iria começas as nove e meia. Seguidamente, olhávamos para o céu e constatávamos que aquelas nuvens pretas e pesadas de chuva haviam vindo para ficar. Em nosso caminho, na estrada, de London a Toronto - meus marido, três filhos e eu - havíamos enfrentado um temporal digno daqueles que temos no Brasil nos meses de Janeiro. Chuva pesada com raios e vento forte. Havíamos saído de casa às 3 horas da madrugada em direção a Toronto quando fomos surpreendidos pelo temporal, mas decidimos ir em frente com a esperança de que lá a situação estivesse melhor. E, de fato, a chuva torrencial em alguns minutos se transformou em um garoinha fina.

À medida que o tempo passava a chuva aumentava. Mas ninguém queria arredar pé de seu lugar. As pessoas continuavam vindo às centenas e os guarda-chuvas, toalhas, plásticos improvisados de última hora começavam a ficar pesados sob o aguaceiro. Quando o helicóptero do papa despontou acima do local da missa o vento era muito forte e ficávamos a imaginar como é que aquele desembarque seria seguro. Apesar dos muitos telões espalhados por todo o lugar não conseguimos ver nada porque os guarda chuvas cobriam tudo. Já ensopados e com os pés atolados no barro decidimos voltar para o carro já que não podíamos ver nada. Como nós, uma população de peregrinos também decidiu procurar a saída. Então novamente aquele rio de pessoas se acotovelando no meio da lama tentava chegar, a passo miúdo, ao final daquele campo molhado.

Enquanto isso, João Paulo chegava e a festa iniciava com muita música. Ao longo do caminho tentávamos acompanhar alguma coisa pelos telões. E, se aquele era um encontro para confraternização entre os povos, nada melhor que uma situação de quase emergência para aproximar as pessoas. Nos amontoávamos com gente de todas as línguas e nacionalidades e tentávamos, da melhor forma nos comunicar, hora com humor devido à situação bizarra, hora para abrigar alguém debaixo de nossos guarda-chuvas. Lá pelas tantas o rio de gente parou de fluir porque uma ambulância tentava passar em sentido contrário ao do povo e então tudo ficou trancado. Enquanto isso o vento começou a soprar cada vez mais forte quebrando muitos guarda chuvas e soltando alguns grande balões de ar que estavam alí para enfeitar o local.

...E com o vento o céu ficou limpo e em instantes o céu estava azul sem uma nuvenzinha sequer. O sol apareceu e o povo foi deixando a trilha da saída para se espalhar novamente pela grama. Foi tudo muito rápido. E então, João Paulo interrompe o que estava falando sobre “o sal da terra” para comentar: “eco el sol!” A multidão bate palmas e ri e então a missa segue. “Continuemos com el sal...” diz o Papa em espanhol.

Ficamos alí até o fim sob um sol muito forte que, ao longo da missa, foi secando nossas roupas. Na hora da comunhão, que foi distribuída a todos que estavam presentes, restavam apenas poucos vestígios do vendaval que acontecera há uma hora atrás. No telão à nossa frente acompanhávamos em silêncio a solenidade. Mesmo sem comentar nada, todos sabiam que algo fora do normal estava acontecendo e eu não pude deixar de associar aquele banho de chuva ao lava-pés da última ceia. Ao que parece, todo o ambiente, ar, terra e peregrinos precisavam ser lavados e purificados antes de poderem receber o pão da vida. Me sentia privilegiada de ter sido lavada, da cabeça aos pés como pediu São Pedro a nosso Senhor quando ele disse que quem não lavasse os pés não teria parte com Ele.

João Paulo abençoou o povo de Deus “aquela multidão que não se podia contar” e embarcou no helicóptero dessa vez, debaixo de sol para fazer jus ao título escolhido para João Paulo por São Malaquias há mil anos passados: “De Labore Solis” (1)

(1) Profecias de São Malaquias que em 1140 deu nomes simbólicos a toda a sequência de Papas que iriam reinar desde aquela data até o momento presente.