Fatalidade


Garota perde a vida ao cair sobre ela parte de uma laje em prédio que estava sendo demolido; garoto morre ao avançar, Lagoa dos Patos a dentro, atrás de uma bóia; acidente de carro causado por alguém que avançou cruzamento em que a outra via era preferencial.

Normalmente, uma explicação: fatalidade. Técnicos de segurança da obra dizem que aquilo não poderia ter ocorrido, porque todas as medidas foram tomadas; os familiares do garoto pensavam que, naquele local, dificilmente o pior aconteceria; o apressadinho do trânsito explica que se o outro não viesse tão rápido poderia ter parado e evitado o acidente.

Fatalidade. Uma palavra que está na mesma linha de destino, como quem diz: “aquela era a hora. Tinha que acontecer.” E, se aceitarmos este tipo de argumento, acabaremos apenas num balançar de ombros e acreditando que “estava escrito”, portanto, nos planos de Deus.

Fatalidade. Destino. Duas boas desculpas quando se erra: o desabamento somente foi possível porque nem todas as medidas de segurança foram tomadas; o afogamento ceifou uma vida porque o sentido de prudência não foi respeitado; o acidente aconteceu porque alguém falhou no respeito às normas elementares da convivência de trânsito.

Um jornal de Porto Alegre publicou uma ampla reportagem de final de semana sobre “gentileza”. Uma palavra que tem, inerente, um estilo de vida e de comportamento, tão necessários em nosso tempo. Um jeito de olhar a vida que preserva a perspectiva de que o mundo não pode ser visto somente a partir do próprio umbigo.

E o que tem a ver com fatalidade? Muito. Em especial que se veja uma obra, por exemplo, não pela economia que se faz em benefício da empresa, mas que seja um serviço aos usuários ou àqueles que transitam em seu entorno; um banho em dia de calor deve ser uma atividade de prazer, de convívio em que a prudência própria e a segurança alheia sejam prioritárias; e que o trânsito não seja uma disputa acirrada por ganhar alguns segundos que, no final das contas, não farão nenhuma diferença.

Em qualquer momento, preservar a vida é o mais importante. E deve vir acompanhada de qualidade e responsabilidade: no projetar uma obra; ao nadar durante um dia de calor; ou ao permitir que as pessoas avancem com segurança – que contra-senso! - sobre as faixas de pedestres.

Não é Deus quem deve ser responsabilizado por tudo isto, a ação - ou omissão - do homem também é poderosa. Para o bem ou para o mal.