Filhos do coração 2


A Olga Ferreira vaticinou que eu voltaria a falar a respeito e não deu outra: depois de escrever sobre adoção recebi mensagens, telefonemas e contatos, contando experiências sobre o assunto. Algumas foram bem sucedidas, outras acabaram mal e, ainda, as que não tiveram desfecho. Pois foi uma destas últimas que me comoveu. Um pai contou a saga de adotar duas irmãs, uma com 9 anos e a outra com 11. Tudo o que eles haviam romantizado em uma adoção foi por água abaixo quando a realidade de duas crianças carentes invadiu seus lares, num enorme turbilhão!

Embora tenham passado apenas cinco anos, o pai afirma que tanto ele quanto a mãe envelheceram cerca de 20 anos! As lições eram aprendidas a cada dia e em praticamente nenhum deles houve a tranqüilidade para poder parar e assimilar o que estava se passando. Começou quando as crianças se deram conta de que tinham praticamente o mundo à sua disposição. Queriam usufruir de tudo, mas manter a liberdade que gozavam na rua. Em certa ocasião, tiveram que buscar uma delas numa sinaleira em que outras crianças esmolavam!

Passado o primeiro momento em que, dentro de casa, conseguiram envolvê-las com seu carinho e amor, havia a sociedade a ser enfrentada. Enfrentada, sim, porque embora o discurso social de justiça, na prática, a discriminação era grande: eram suas filhas e queriam o convívio com os filhos de seus amigos, cursarem escolas de bom nível e instituições sociais que freqüentavam. No entanto, parte dos amigos se afastou, algumas escolas não quiseram recebê-las e tiveram que cancelar parte dos títulos sociais. 

Ele acredita que venceram. Hoje, as meninas estão bem encaminhadas, embora não possa dizer o que vai ser o seu futuro, pois as duas são diferentes e uma delas ainda tem saudades do tempo de rua. Fariam a experiência de novo? Acredita que não, porque gastaram a energia que tinham. Existem receitas? Que não há regras, mas a necessidade de encontrar caminhos, com os pais sabendo o que é melhor para os filhos e auxiliando-os a ver seus próprios rumos.

Acreditar que se faz bem ao deixar os filhos do coração à própria sorte é jogá-los na vida sem valores e referências. Não dá certo.  Hoje, amadurecidos, julgam que o tempo não passou em vão e descobriram que uma boa relação se alimenta do dia a dia: tem que se viver bem o hoje, resolvendo os problemas tão logo apareçam e colocando os filhos num patamar de importância que supere todos os inconvenientes que porventura venham a surgir.