Um gosto de desafio

outubro de 2003


A discussão a respeito do ensino que temos e do ensino que queremos é, normalmente, extensa, marcada por desencontros e, muitas vezes, capaz de colocar educadores em campos diametralmente opostos.

É o que salta aos olhos quando recebo um envelope do professor Samir - que faz uma leitura peculiar dos jornais que recebe - dois textos, que parecem um enigma: um em que um pensador da educação diz que a universidade forma empregados – e não empreendedores; outro em que são mostrados e comprovados os números que apontam as potencialidades econômicas brasileiras (as más línguas dizem que seremos eternamente “potência”) que precisam estar em foco nas negociações, em especial com os Estados Unidos, no que se refere à Área de Livre Comércio das Américas.

Que eu não mereça um anátema dos economistas, em especial do professor Massaú, mas há uma distância entre a exportação dos nossos produtos primários e a possibilidade – policiada pelo sistema econômico internacional – de se exportar com valor agregado (o caso dos industrializados). E há uma distância maior entre os diversos índices que medem o desenvolvimento, o avanço nas políticas sociais e o nível de vida de uma população.

Mas, voltando aos estudantes. Onde um artigo pode encontrar o outro? Exatamente em que temos um ensino que busca, às vezes desesperadamente, preparar o aluno para um mercado dinâmico, capaz de tornar superados velhos ensinamentos, se estes se cingirem apenas a um “treinamento” do uso de recursos. E qual é a alternativa? Parece (mas não é) simples: na sua formação, o aluno precisa compreender, ser desafiado para trabalhar com princípios, isto é, tornar-se um empreendedor, o construtor do seu próprio conhecimento.

É este aluno, que busca nos bancos escolares de sua formação profissional muito mais do que apenas aulas e trabalhos a serem realizados extra-classe. Ele quer, ainda, “sugar” dos professores o que eles podem lhe dar a mais, corre atrás de bibliografia, busca expandir seus horizontes por todos os eventos que possam auxiliar na sua formação.

Este é um empreendedor. E serão os empreendedores que poderão fazer a mudança entre um país que exporta apenas sua produção primária – que já é de bom tamanho, visto que há escassez de alimentos no mundo; mas que também pode ocupar mercados com elementos que desafiam a inteligência, como é o caso, hoje, dos recursos da informática.

Claro que os números repassados nos artigos são preocupantes: o Brasil investe, hoje, 1% do seu produto interno bruto em tecnologia. E, mais do que isto, não há uma cultura das empresas em firmarem parcerias com as instituições de ensino, propiciando condições de pesquisa em que os resultados revertam para o seu desenvolvimento.

Infelizmente, muitas são as mazelas, ainda, em nível de ensino e de comércio exterior. As mudanças têm que iniciar pelo próprio ensino. Passamos por uma época em que o governo repassou muitos recursos para o ensino superior, quase sempre mal direcionado.

Hoje, a pobreza é quase franciscana e requer, acima de tudo, criatividade. A criatividade que assusta a muitos de nós, professores, porque requer a capacidade de deixar os alunos avançarem sem ter muita certeza de onde chegarão. Um certo medo do desconhecido, compreensível, inerente às novas rupturas e deixando um gosto de desafio, capaz de realimentar quem olha para estes rapazes e moças e vê que eles têm sede. Sede de novos caminhos para uma educação.