Igreja e Internet: uma nova mídia, um velho desafio


Resumo: O presente trabalho pretende abordar a relação entre uma instituição – a Igreja Católica, Apostólica, Romana – e um instrumento que demonstra, hoje, uma potencialidade diferenciada das demais mídias – a Internet – capaz de, adequadamente utilizada, auxiliar neste momento que é uma encruzilhada histórica, para a própria Igreja.

Palavras-chave: Igreja, Internet, interação.

1. Apresentação:

A Igreja Católica, Apostólica, Romana, novamente, encontra-se diante de um desafio: o surgimento de novas mídias e de novas tecnologias (renovando as já existentes) desafia a que se pense a respeito de uma realidade presente, para a qual temos um lastro de reflexão, mas faltando a prática.

Todas as mídias já conhecidas foram desafiadas, nos últimos 30 anos, a passarem por uma reformatação. Tanto o instrumental utilizado para reflexão, quando aquele que permite a propagação da fé, encontra desafios no que se refere ao seu formato, seu conteúdo e a utilização de elementos vindos da informática.

A mídia impressa cada vez mais se ocupa da formação: jornais, revistas, panfletos, bilhetes, mas precisando de um redesenhar que atenda aos novos tempos; o rádio e a televisão passam pelo processo da digitalização numa velocidade que encanta, mas ao mesmo tempo assusta, diante da nossa incapacidade de acompanhá-lo; e a Internet – motivo desta reflexão - aparece como um poderoso instrumento de articulação entre organizações, na qual a Igreja Católica está presente de forma bastante precária.

2. O pensamento da Igreja:

Durante muito tempo, a Igreja Católica deteve o maior de todos os meios de comunicação que se tem conhecimento na História: o púlpito. O lugar de onde se fazia a pregação também era o lugar de onde partiam as orientações, os anátemas, as boas e as más notícias. A partir da metade do século passado, quando a sociedade, gradativamente, deixou de ser rural, para ser iminentemente urbana, este eixo também se deslocou e a Igreja não soube encontrar o seu lugar.

Acreditou que, mesmo na periferia, continuaria a exercer seu poder de sedução e atração. Enganou-se: competindo com a sua pregação, além dos meios de comunicação, surgiram outros credos religiosos, que aliaram ao púlpito uma forte presença na mídia, tendo, como reconheceram os padres em seu encontro nacional, ficado quase que asfixiados entre as igrejas pentecostais e as igrejas eletrônicas.

Embora possa parecer contraditório, foi um papa com origem humilde e camponesa, João XXIII quem, através do Concílio Vaticano II, fez com que a Igreja se voltasse com maior atenção para este campo. Desde então, com bons documentos nas mãos, continuamos com um problema: entre a teoria e a prática, temos muito discurso e pouca atividade concreta.

João Paulo II usou uma analogia ao dizer queo primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações, que está a unificar a humanidade, transformando-a - como se costuma dizer - na ‘aldeia global’. Os meios de comunicação social alcançam tamanha importância que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais”.

Esta preocupação também esteve presente na 35a Assembléia Geral da CNBB que tratou do tema “Igreja e Comunicação Rumo ao Novo Milênio”, quando foi proposto que se fizesse uma revisão dos modelos e práticas de comunicação da Igreja no Brasil, tanto no campo das relações interpessoais, grupais e organizacionais, quanto no uso dos instrumentos ou meios de comunicação, na tarefa evangelizadora.

Interessante que isto aconteceu em 1997, dez anos passados, quando os senhores bispos mostravam a intenção de assumir os seguintes compromissos: uma espiritualidade do comunicador cristão; uma fundamentação ética para a Pastoral da Comunicação e o protagonismo dos leigos.  

3. A Internet como meio de propagação:

A perspectiva de que a Internet seja “popularizada” a curto ou médio prazo praticamente não existe. Os números de acesso, hoje, no Brasil, não chegam a 15% da população. No entanto, ela não pode e não deve ser desprezada, pois é acessada e acessível para uma parcela da população que é conhecida como multiplicadora de informação.

Mais que isto, utilizada adequadamente, pode incrementar a propagação da mensagem da Igreja, além de ser um instrumental extremamente útil para que os públicos internos que trabalham como lideranças sejam informados e instruídos em suas ações. Assim, duas, ao menos, são as áreas que podem ser beneficiadas da sua adequada utilização: a administrativa e aquela que pode auxiliar no anúncio, na denúncia e no testemunho.

Nossas estruturas administrativas da comunicação são arcaicas e já não respondem mais aos novos desafios. Organizar espaços adequados em que se possa ter um retorno maior, possivelmente com menor custo, é um desafio, que requer um olhar sem preconceito. No entanto, parece que a outra área é a que provoca certa comichão entre nossos quadros: A riqueza de opções que nos são oferecidos, desde e-mails, espaços de bate-papo, contatos em tempo real (MSN), páginas, espaços em que se possa socializar produção, reflexões e cursos.

Tenho uma página na Internet há oito anos. Neste meio tempo, ela serviu para colocar todos os conteúdos que tenho à disposição de alunos e de curiosos, mas não só: com artigos, crônicas, reflexões, parábolas, meus “atentados literários” servem a quem dela queira se valer (http://manoeljesus.ucpel.tche.br). E seguidamente a surpresa é agradável, quando se recebe um e-mail carinhoso dando conta da utilização de determinados conteúdos. Esta é uma forma meio anárquica, mas que pode ser organizada.

Mas não basta ser apenas um modismo. Já há muito lixo na Internet – material abandonado depois de ter sido lançado e mantido durante curto espaço de tempo, páginas feitas ao sabor de um evento e que são deixadas de lado. Muitos são os elementos que precisam ser conjugados para que tenha valor e permanência: atração visual, interesse pelo conteúdo, empatia com a sua mensagem e a permanente atualização, em especial quando se trabalha com públicos direcionados.

 A Internet pode, inclusive, auxiliar no desafio que, hoje, representam as emissoras digitais. Quem imagina que o problema está colocado apenas nas chamadas “rádios comunitárias”, está enganado. Em poucos anos, teremos as “televisões comunitárias”, que, juntamente com a definição do novo padrão televisivo para o Brasil, auxiliarão na popularização de seus sinais.

A Internet pode proporcionar, por exemplo, bancos de dados (em todos os sentidos), onde possamos encontrar textos, imagens, voz, voz e imagem. Para isto, basta um bom servidor, de onde se faça a alimentação de comunidades, paróquias, dioceses, que passem a trabalhar seus meios de comunicação.

 4. Finalizando

Creio que, aqui, estão colocados alguns desafios:

1. Efetivar as decisões dos bispos em Itaici:

a) uma espiritualidade do comunicador cristão – não basta apenas fazer, é preciso ter substância e qualidade para manter aqueles que trabalham nos diversos meios.

b) uma fundamentação ética para a Pastoral da Comunicação – não se pode dizer tudo o que se quer ou se pensa. Temos parâmetros que precisam ser conhecidos, inclusive pelos nossos quadros. O “achômetro” é altamente prejudicial nesta atividade. E aqueles que fazem presença nos meios de comunicação têm que possuir um histórico de vida que seja um autêntico testemunho do que se apresenta como mensagem.

c) E o protagonismo dos leigos, que precisam ser preparados, inclusive com investimento em subsídios e, mais ainda, no caso das emissoras comunitárias, financiando o seu registro profissional.

Tive muita alegria quando um Seminário Estadual de Comunicação da CNBB, Regional Sul III, aceitou minha sugestão de que era necessário pensar o processo de comunicação já nos institutos de formação de Teologia. Pois me parece que precisamos avançar:

1. no sentido de termos espaços para rezar e refletir nossas atividades de comunicação;

2. mesmo dando graças a Deus por todos os que voluntariamente se dedicam à causa, vivemos tempos em que profissionais são necessários, com tempo e recursos disponíveis.

3. Lembrar dos bispos em São Domingo, quando alertaram para o quanto é prejudicial o improviso no campo da comunicação.

Para que se concretize um novo processo de comunicação, vai ser fundamental utilizar a Internet. Mas, em hipótese alguma, pode-se esquecer que este é, apenas, um instrumento, um “meio de comunicação social” (terminologia cunhada pelo Concílio Vaticano II) – não é a própria mensagem, nem deve ser um fim em si.

Existe a necessidade de preparar adequadamente o agente evangelizador, consciente de que é preciso respeitar, amar e colocá-lo na perspectiva da construção do Reino de Deus. Só assim, poderemos interagir com o destinatário da Palavra, num processo profundamente rico, mas que requer uma mudança de rumo: não “demonizar” os meios que servem à comunicação, mas aprender, com eles, “como são formosos os pés daqueles que anunciam a boa nova!”.

Referências:

DARIVA, Noemi (org.). Comunicação Social na Igreja – Documentos fundamentais. São Paulo: Paulinas, 2003.

Internet – A porta de entrada para a comunidade do conhecimento. Coleção Pastoral da Comunicação do Serviço à Pastoral da Comunicação. São Paulo: Paulinas, 2004.

ZEZINHO, Padre. Novos púlpitos e novos pregadores. São Paulo: Paulinas, 2004.

TEIXEIRA, Nereu de Castro. Comunicação na Liturgia. São Paulo: Paulinas, 2003.