Indignados pela vida


A primeira matéria chamou a atenção por mostrar um pai denunciando a falta de condições de extrair os órgãos da filha, recém falecida, para transplantes, já que o hospital e os organismos locais não tinham condições técnicas e estrutura para prestar o serviço. Na segunda, uma mãe dizia, entre lágrimas, estar preocupada com o anúncio de um município de que iria reduzir a merenda, em quantidade e em qualidade, pois estava sem recursos que deveriam ter sido repassados pelo governo estadual e federal. Olhando para a câmara, ficava o clamor/denúncia: “era o único momento do dia em que as crianças podiam se alimentar decentemente!”

Ora, não é difícil fazer contraponto com notícias recentes: os desvios do Departamento de Trânsito do Rio Grande do Sul (DETRAN/RS), estimado em um milhão de reais por mês, assim como a denúncia de que empresas do centro do país comercializavam leite trocando parte dele por outros elementos, tornando-o menos nutritivo, mas, para os próprios, mais lucrativo.

O que foi desviado do DETRAN/RS é parte dos recursos que somem pelo ralo em todo o país. No entanto, é o dinheiro que poderia aparelhar hospitais, por exemplo, propiciando o transplante necessário e não deixando aquele pai duplamente frustrado: pela perda da filha e por não ser útil a outros. Tão angustiante quanto é a situação da mãe que vê os filhos duplamente penalizados: pela falta de recursos aplicados na alimentação e, quando ela acontece, podendo não estar sendo nutritivo o suficiente para atender a todas as necessidades orgânicas.

Estes são crimes que precisam ser considerados hediondos: desviar recursos públicos é negar serviços essenciais à população. E àquela população mais necessitada, pois os demais encontram seus próprios caminhos e buscam alternativas quando o governo não retorna em serviços o que cobra em impostos. Mais ainda: adulterar o leite é colocar em risco a saúde de duas faixas da população: a criança, para a qual este alimento é fundamental na construção da sua estrutura, especialmente a óssea; e os idosos, que ali encontram suprimentos vitais.

Não é possível que, em ambos os casos, ladeados por bons e caros advogados, estas pessoas tenham penas meramente figurativas. São crimes graves contra o ser humano e merecem a indignação. Omitir-se é ação criminosa, pois aceitamos um “destino” que não merecemos e, mais ainda, condenamos aqueles que não têm representatividade para protestar: um ser que oferece a continuação da vida, nossas crianças e nossos idosos.