Infância injustiçada


A mulher seguia na frente. A bicicleta era maior e carregava uma caixa onde depositava os alimentos e pequenos objetos. O menino vinha atrás, também de bicicleta, mas com sacolas amarradas em volta do bagageiro. Mais ágil, passava por entre os latões de lixo onde os feirantes depositavam restos de comida, desordenadamente. Seu caminho era diferente das pessoas que faziam compras. Enquanto estas caminhavam tranquilamente pelo vão central entre as bancas, os dois disputavam espaço com os carros que passavam pela avenida, ocupando a periferia do espaço comercial. Não os vi, em nenhum momento, pedir dinheiro: havia uma dignidade ferida estampada naqueles rostos.

O garoto deveria ter em torno de nove anos, talvez menos. E, embora ágil, quase que travesso no andar, tinha um olhar sem brilho, sem a força comum entre as crianças e com o jeito de que os lábios erguidos pelo sorriso fácil haviam sido perdidos há muito tempo. O pior, ao se observar uma situação como esta, é a sensação de impotência que se tem. Quantos “meninos de bicicleta” desde cedo são obrigados, pela necessidade, a acompanhar os pais no trabalho diário de providenciar a própria subsistência?

Exatamente naquele momento, a possibilidade de desenvolver um ser humano em sua plenitude estava sendo frustrada, pois sua perspectiva é, para o resto da vida, percorrer estes mesmos espaços, fazendo exatamente aquilo que já fizeram seus pais, como se um “destino” regesse seus passos. Embora alguns possam argumentar que é uma opção e que os pais deveriam providenciar para que o menino estivesse na escola, ou pedir socorro para as instituições públicas que atendem crianças em situação de risco, a verdade não é bem esta.

As próprias instituições que atendem menores, hoje, reconhecem que não têm condições de acolher a todos os que deveriam abrigar. E os professores também se dão conta de que se na escola não existir uma infra-estrutura que permita, além do estudo, dar ao menos a alimentação, não conseguem atrair e manter os pequenos.

Não há condições de vencermos a violência, em qualquer de suas formas, enquanto existirem crianças que vêem como única perspectiva de trabalho catar os restos da sociedade. Virar este jogo vai levar muito tempo, porque também seus pais chegaram a isto da mesma forma. Mas não há como desistir: a mudança só vai acontecer quando pudermos assegurar que as crianças possam viver como crianças, sem terem sua infância injustiçada.