Jogar em família


O Feijó passou por mim na manhã de domingo, em frente à Lagoa dos Patos, na praia do Laranjal. Brincou dizendo que ali estava nascendo uma reflexão. E tinha razão. Enquanto aguardava minha turma, fiquei observando as pessoas que faziam a sua caminhada matinal, ou apenas passeavam aproveitando a temperatura amena e a visão deslumbrante. Pelo horário, relativamente cedo, a maior parte era de pessoas idosas e crianças, o que se pode chamar de “espaço infanto-geriátrico”. Jovens somente aparecem ao meio-dia, tomam conta da tarde e transformam a noite em ponto de encontro.

As conversas descontraídas e amenas que embalavam as andanças lembraram-me de consultas recentes: a um cardiologista e a um geriatra, acompanhando meus pais (não que não precise dos dois – o cardiologista já me atende e o segundo creio que é hora de começar a pensar seriamente). Em ambos os casos, a advertência de que, aos 83 anos, é hora de dar um cuidado especial à memória, com uma série de recomendações, mas uma chamou a atenção: a lúdica, isto é, fazer exercícios mediante brincadeiras.

Quando me atrevi a esboçar um sorriso, o geriatra advertiu que o mesmo valia para mim, passando dos 50, precisando exercitar os neurônios em atividades como a leitura, o exercício de palavras cruzadas e jogos, de preferência trabalhando a lógica, o raciocínio e a lembrança. Isto inclui desde as cartas, dominó, quebra-cabeça, montagem e uma variedade encantadora de alternativas. Mas salientava: a serem realizadas ao menos em dupla ou em grupos, pois são mais instigadores do que aqueles que se joga contra um computador, por exemplo.

Aqui em casa, a mãe e a Leonice (minha irmã) aderiram de pronto. Eu e o pai ainda achamos que o “tico e o teço” funcionam muito bem e não entramos nas muitas mesadas que já se realizam entre carteados - envolvendo netos e bisnetos - e eletrizantes partidas de dominó! A recomendação lembrou-me de épocas em que se incentivava a família, depois da janta, a gastar um tempo jogando cartas, que servia de aproximação entre as pessoas e enriquecia a capacidade de aprendizado, sem que disto tivéssemos noção.

Chega, agora, um tempo de férias, em que as tardes, em casa, assim como as noites, acabam sendo longas e pedem alguma forma de entretenimento. Jogar em família pode ser uma boa forma de refazer laços e exercitar a memória. Uma terapia ocupacional e uma boa desculpa para ficar junto de quem se gosta.