Levantar o tapete


O crime cometido na semana passada, quando uma criança de seis anos morreu depois de ter sido arrastada por diversos quilômetros em ruas do Rio de Janeiro, chocou e trouxe para discussão, novamente, um sério problema: afinal, com que idade alguém é responsável por um ato criminoso, em especial aquele cometido contra a vida?

Infelizmente, os projetos a respeito que estavam no Congresso Nacional foram vitimados pelo mal que sofre a maior parte dos temas importantes que precisariam ser discutidos seriamente por nossos parlamentares: foram engavetados ou perderam os prazos. Mas os exemplos estão em sociedades que avançaram no trato das relações humanas: crime é crime em qualquer idade, o que se precisa é que autoridades, amparadas por uma máquina de estado em condições de funcionar, estabeleçam as condições em que o delito foi cometido.

Ficamos estarrecidos diante daqueles que pedem a pena de morte, esquecendo que os criminosos já estabeleceram a sua pena de morte e não é incomum ouvir depoimentos em que a ameaça era direta: “ou faz ou te apago!”.

Com ar de pretensa seriedade, algumas autoridades dizem que não se pode agir enquanto o sangue está quente, que é preciso uma “séria reflexão da qual façam parte todas as instâncias da sociedade”. Ora, já tivemos chances de fazer muitas discussões e temos todos os diagnósticos: somos uma sociedade que marginaliza; uma parcela está vivendo em condições desumanas; nossos jovens estão sem perspectivas.

Sim, e daí? Alguém já disse que quando queremos aliviar nossa consciência realizamos um seminário. Não é preciso. Todos os diagnósticos estão à mão: uma máquina estatal que não consegue utilizar eticamente os recursos arrecadados; um poder legislativo permeado pela corrupção; um poder judiciário que se enrola numa legislação que se diz capaz de resolver todos os problemas.

Então, o que resta? Uma sociedade que relativiza valores, que não estão apenas no que é público, mas até dentro de casa; que não fiscaliza a postura dos seus representantes, pois muitas vezes nem lembra em quem votou; que não apóia instituições que trabalham com menores e sequer cobra uma atuação em que o estado é omisso.

Perigosamente, jogamos nossa sujeira para debaixo do tapete. Precisamos levantar uma ponta que seja para resolver o problema da violência – que se evidencia agora – mas também para termos a perspectiva dos outros problemas e de suas soluções.