A maioria silenciosa


Manoel Jesus*

manoel@atlas.ucpel.tche.br

 

Quando me debrucei sobre o tema A Propaganda em Televisão Criando Hábitos de Consumo na População de Baixa Renda, para defesa de dissertação de mestrado em Desenvolvimento Social, minha intenção era saber se a propaganda criava hábitos de consumo nesta camada ou se estes espaços, tão valorizados hoje em dia, acabavam sendo períodos de entretenimento.

No entanto, três questões, digamos, colaterais, chamaram a atenção de amigos com quem discuti o tema. Um jornalista chegou a dizer que eu deveria estampar uma chamada do tipo: “senhores candidatos, atenção” e mostrar os resultados.

E o que causou tanta sensação? Em primeiro lugar, saber que a população de baixa renda – naquele local de estudo – tem uma preocupação muito grande em manter suas contas em dia. Um percentual que corresponde a 75% dos moradores. Sabe que, se sair do que programou com gastos familiares, gera uma bola de neve difícil de segurar.

Em segundo lugar, uma parcela significativa tem aplicação em poupança. Pode parecer estranho, mas uma população que tem como renda cerca de seis salários mínimos, algo, então, em torno de R$ 900,00, como renda familiar, preocupa-se com possíveis investimentos, ou em estar preparada para um transtorno. Em terceiro lugar, dos entrevistados, 50% possui televisão a cabo, em casa.

Segundo alguns comentaristas de plantão, o interessante destes dados está em que, embora se tenha plantado a idéia de que esta é uma população que não consegue administrar seu dinheiro, isto não condiz com a verdade.

É claro que se torna perigoso tirar ilações a respeito. No entanto, um artigo publicado no endereço eletrônico da Rocinha – famosa favela do Rio de Janeiro, pela jornalista Rita Homero, com o título “Cliente humilde, mas que honra suas contas”, pode se perceber que lá, como aqui, esta é uma preocupação.

Uma loja com ramificação em todo o Estado, atendendo população de baixa renda, informou há alguns dias, que não tem problemas com inadimplência.

A que conclusões podemos chegar? Uma delas, e fundamental, é que a população de baixa renda, é honesta. A outra é que, realmente, os políticos precisam cuidar do próprio discurso. Afirmar, sem conhecimento de causa, que vai “encher o buxo do povo”, pode estar é, simplesmente, tornando-se uma figura mais para o ridículo que qualquer outra coisa.

Por já estar cansada de velhas promessas, matreiramente, a população observa, observa e espera que apresentem propostas diferentes. Ou melhor, sequer pensa em propostas, mas em formas como estas poderão se concretizar. É o que se chama de “maioria silenciosa”. Aquela que se conhece quando se sai às ruas de manhã bem cedo e que circula em ônibus abarrotados, de bicicleta, charretes e pequenas conduções que levam às feiras.

Com alguns destes dados levantados e outros que as instituições dispõem – como é o caso do Instituto Técnico de Pesquisa da Universidade Católica – devemos redirecionar as discussões, especialmente procurando tirar da cabeça desta mesma população que “é tudo a mesma coisa. É só chegar lá em cima e já quer tirar do nosso bolso”. E, de uma eleição para a outra, acabam mostrando também uma característica do brasileiro: esquece.

Aí está um ponto difícil, como muitos outros que enfrentamos no Brasil. E a educação tem uma contribuição fundamental a dar neste sentido. É só descer até aqueles que podem fornecer estes dados: a própria população.

 

*Mestre em Desenvolvimento Social