Porque não um "mas"?


 

Ouvi do apresentador de um programa de rádio, pela manhã, na capital, que qualquer pessoa que estivesse colocando um "mas" na expressão: "as torres gêmeas foram pelo ar, morreram cinco mil pessoas, mas...", estava compactuando com os terroristas que haviam perpetrado aquela barbárie.

Acontece que esta pequena conjunção adversativa tem uma importância muito grande e não merece, em hipótese alguma, ser discriminada.

Fiquei pensando que, no mesmo programa, não ouvi nenhuma informação – que somente encontrei uma vez num site da Internet – de que a retaliação proposta pelos Estados Unidos (era um médico voluntário – médicos sem fronteiras - que se encontrava no Afeganistão quem afirmava) causaria a morte de um milhão de pessoas. E nem era preciso que o xerife Bush atacasse o país, pois quem lá ficou foram apenas os pobres, diante de uma grande seca, da escassez de alimentação e de remédios.

Tirando as leituras já feitas de que toda a máquina norte-americana - que dita normas de segurança no exterior, teoricamente ultra-preparada para defender-se - não havia funcionado, ainda há uma outra teoria interessante: quem perpetrou um lance tão ousado, colocando dentro dos Estados Unidos ao menos 50 pessoas, sabe-se lá com quantas mais de apoio, estaria esperando candidamente, em meio ao belo por de sol das montanhas, um ataque dos norte-americano?

Na certa, a população civil é que pagará. Como sempre. Estão longe os tempos em que os líderes guerreiros iam à frente de suas tropas e, muitas vezes, eram os primeiros a morrer. Agora, as apáticas lideranças ocidentais pedem (obrigam) o sacrifício da população, o sacrifício financeiro e, o que é o pior, dos nossos jovens. Que, muitas vezes, morrem sem nem mesmo saber o porquê, com pseudos ideais de bravura e civismo.

Sim, senhor apresentador, existe um "mas". Não há justificativa para cinco mil mortos. Também não pode haver justificativa para um milhão de vítimas. O processo de globalização, infelizmente, favoreceu a uma parcela em detrimento de vastos setores do mundo. Este desenho sombrio da velha Terra é que está começando a reverter. Infelizmente, o que poderia ser um princípio de século pautado pela paz, se os países desenvolvidos abrissem mão de "mordomias", favorecendo o terceiro, quarto e quinto mundo, gerou a pobreza, a falta de instrução, o medo da morte, terreno fértil para que se desenvolvam todas as "religiões" possíveis.

Nenhuma religião propõe que se faça o que aconteceu em Nova Iorque e Washington. No entanto, ser apertado pelo dedão durante tanto tempo, gerou interpretações que resultam no que aconteceu. "Mas", espera-se de nossas lideranças o bom senso que não reinou no final do século passado: que se freie os abusos consumistas, que se resgate a cidadania daqueles que estão marginalizados. E que se construa uma sociedade solidária.

Ainda podemos redimensionar o desenvolvimento mundial, de forma harmoniosa. E causaria bem menos problemas do que uma possível terceira guerra mundial. Há muitos dedos brincando sobre os botões dos arsenais atômicos, de lado a lado. Brincadeira perigosa para este nosso já instável e problemático mundo.