Minha reforma ortográfica


A virada do ano trouxe, também, a reforma ortográfica. Especialistas afirmam que, dos países de língua portuguesa, seremos os menos penalizados; outros, se tratar de uma fraude e há inclusive os que se negam a escrever conforme as novas regras. Não vejo motivos para tanto alarme: a língua é algo vivo e tem que se adaptar aos novos tempos, preservando valores e tentando chegar o mais próximo possível da maior parte da população.

Das mudanças nas regras, algumas eram inevitáveis, como a exclusão do trema. Certos jornais - caso da Folha de São Paulo - já não o usavam. Mas nunca briguei com o trema. O mesmo não acontece com o hífen, que sempre me olha de um pedestal superior e, toda a vez que penso estar colocando-o no lugar certo, consultando as normas, dou-me conta de que errei. Seu desdém, então, é impressionante, mas é uma espécie de jogo entre gato e rato: um dia eu ainda acerto, nem que seja pelas novas normas.

Como disse, a língua é algo vivo e não é necessário que alguém se escabele se não conseguir assimilar de uma só vez cada regra e suas exceções. Temos dois anos pela frente e a prática ajuda a incorporar as mudanças.

Já passei por uma reforma ortográfica e, confesso, tive o prazer de encontrar dois referenciais para poder assimilar e criar algum estilo, mesmo que pobre, para escrever. O primeiro foi o padre Olavo Gasperin (hoje, pároco em Arroio Grande), que gastou o seu suor para que eu aprendesse o português, no Seminário São Francisco de Paula, e de quebra ainda me incutiu o gosto pelas letras e pela música. O outro foi o seu Clair Rochefort (hoje diretor de opinião do Diário Popular), que me auxiliou a criar um estilo em jornalismo, especialmente mostrando a necessidade de que a notícia tenha clareza e precisão, sem descuidar dos pequenos detalhes que podem garantir o interesse do leitor.

Se algo não deu certo, por favor, não culpem os dois. Tenho toda a responsabilidade, pois, hoje, ajudo alunos a complementarem seus conhecimentos de português e a criar um estilo em jornalismo. É neste caso que sinto o quanto é dinâmica a língua e a linguagem, onde não basta apenas aprender grafia, normas, técnicas, mas, tornar-se um profissional responsável pela comunicação - a intermediação entre o fato e aquele que deseja tomar conhecimento. Uma informação apenas “técnica” é para ser esquecida, mas, convenhamos, um texto com “sabor e aroma” envolve e seduz.  Como todas as coisas boas da vida.