Não achei graça


Sinto muito, mas não consigo achar graça quando as pessoas fazem piada a respeito dos problemas de corrupção e de desvio de dinheiro que está acontecendo no Brasil.

As piadas correm soltas – do humor mais sofisticado ao mais chulo – onde se satiriza desde o presidente, os deputados, até os transportadores, com suas malas, caixas e cuecas recheadas de dinheiro.

A impressão que se tem é de que o dinheiro anda assustado e, mais ainda, aqueles que se adonaram dele indevidamente. Com medo de que seja localizado, ele anda, meio tonto, de um lado ao outro do país.

Mas, no humor, o sentimento é de que somos masoquistas: estamos rindo da nossa própria desgraça! Afinal, somos nós que financiamos o setor público, de onde os recursos estão sendo desviados. Sendo repetitivo: dos serviços elementares como a saúde, a educação, estradas, condições para o combate à pobreza.

Alguns dias atrás, em sala de aula, um professor elogiava o humor que era capaz de captar o sentimento da população e fazer extravasar o seu sentimento. Até acho que tenha uma ponta de verdade, mas, infelizmente, o brasileiro contenta-se apenas com o que lê, escuta ou vê.

E é então que, creio, o humor desvia a atenção. Vendo uma boa peça satírica, o sentimento que se tem é o de que já fomos justificados por aquele escritor, chargista, humorista. Fazemos nossas aquelas palavras. E perdemos a capacidade de nos indignar.

 Uma santa capacidade que foi, historicamente, capaz de mobilizar populações, quando inconformada com os rumos dados por sua classe dirigente.

Recentemente, um deputado federal confessou que mudou de opinião a respeito de uma determinada votação quando viu que seu e-mail estava abarrotado de protestos vindos de todo o Brasil e, especialmente, de sua base eleitoral. Alguns, até, passaram a viajar na madrugada para Brasília, para não ter que encontrar seus eleitores nas estações rodoviárias ou nos aeroportos.

Não me venham dizer que, num momento como este, o bom humor é a salvação. Não é. Um resmungo, de vez enquanto, também faz bem. Salutar é o bom senso e a fiscalização efetiva sobre aqueles que, em nosso nome, exercem funções públicas.