No alto da montanha


As imagens que vêm da China mostram monges budistas em ações de protestos contra o governo chinês, especialmente o seu exército. As cenas querem demonstrar o descontentamento de uma religião com um regime de governo. Meia verdade. Embora seja isto o que a administração daquele país quer passar para o Mundo, a outra parte da verdade é que a região faz parte do grande império comunista por invasão, o que não é aceito pelos moradores do Tibet. Ainda que analistas queiram mostrar que a China está se fragilizando, especialmente nas províncias mais distantes e menos atendidas pelo centro do poder, também aparece que, depois de estender sua mão de ferro sobre alguma área (veja o caso de Hong Kong), não há quem a faça parar.

O jogo, no entanto, é de poder e economia. Para confirmar, basta olhar os países que preferem ficar quietos e não hostilizar o governo chinês, por medo de perder negócios, seja em importação – a China não tem problemas de consciência em colocar produtos de baixa qualidade e, até mesmo, potencialmente perigosos, em todos os continentes – como em exportação, já que se considera o consumo de uma população estimada em 1,3 bilhões de habitantes.

A História é pródiga de situações em que se misturou religião, economia e política. Basta olhar para a Irlanda, onde duas facções políticas se combatiam sob a justificativa de que uma era protestante e a outra católica; as Cruzadas, em que os cristãos queriam “livrar” a Terra Santa, mas também reabrir suas rotas de comércio com o Oriente; e as “descobertas” das Américas, onde os religiosos convertiam massas dispostas a aceitar o seu “destino”, em muitos casos sob escravidão.

Então, no caso atual, cuidado. Primeiro: a China não permite que imagens sejam colhidas no Tibet, a não ser por suas próprias equipes, o que impede de saber a realidade dos fatos. Segundo: já havia notícias de que os tibetanos estavam chegando ao máximo de sua tolerância, com o incentivo do governo para que chineses ocupassem áreas de comércio e de serviço nas suas principais cidades. Terceiro: as palavras do Dalai Lama de que não há sentido na violência para fazer mudanças estruturais e sociais.

Algo cheira mal: os monges chegaram ao mesmo nível de intolerância de seus concidadãos. O ditado diz: “a paciência tem limites” e parece que a dos tibetanos e dos monges chegou ao limite, de uma forma que não restou alternativa a não ser detonar o rastilho de pólvora no alto da montanha.