Nos braços do Eterno Descanso


 

A gente só conhece os homens e as cidades quando os observa a distância.

Os homens de fé precisam descobrir que religião tem muito a ver com sensação. Toda a vez que tentou tornar-se sinônimo de dogma, acabou colocando homens contra homens, provocou a morte e a dor, transformou-se em inquisição.

Esta é uma obra escrita para que se preserve o espírito de tolerância. Todos têm o direito a ter sua fé, desde que esta fé não abale o direito de cada pessoa expressar-se livremente, ser agente de sua própria vida.

Uma narração de fé

Este não é um relato para auto-ajuda. Sequer é um romance bem escrito, envolvente que possa levá-lo a imaginar o inimaginável.

Deseja fazer com que tenha vontade de voltar a tempos perdidos da infância, experiências que ficaram na sua história, preces que são balbuciadas no segredo da noite ou na iminência da perda.

Ou será que você não teve alguma?

No alvorecer da vida, quando nos apressamos em galgar os degraus que nos levam a sermos adultos, em muitos momentos ficam, diante de nós, somente o mistério e a imaginação. Pena que, mais tarde, os esquecemos.

Aquele tempo em que nos apressamos em sermos adultos - e que deveríamos alertar a crianças e adolescentes que não voltam mais - é o tempo em que, sob o olhar carinhoso de algum anjo amigo (pai, mãe, tio, tia, irmão, irmã, amigo) armazenamos em nossos cérebros as mais doces figuras religiosas.

Mas não é apenas de reminiscência que desejo falar. E tenho uma preocupação: não quero que fique com a sensação de que, neste livro, vai encontrar coisas absolutamente novas.

Sentir-me-ei realizado se, ao terminar a leitura, você fechar o livro e restar uma doce saudade do Infinito e a sensação de que você ainda quer mais.

Se for assim, esqueça que você não pode chorar. Chore. Mas chore não de tristeza por aquilo que já passou. Chore para desabafar e, depois, volte ao convívio dos seus. Olhe então à sua volta - encontre pais, irmãos, esposa, esposo, filhos, amigos - e sinta a vontade de abraçá-los, porque você quer viver.

Sinta-se incompleto, porque a plenitude, quem lhe dá é o Eterno Descanso. E este tem o seu tempo para pedir a sua aproximação. Não o apresse. Não se apresse.

Foi para isto que Ele soprou sobre o barro: deu-lhe seu próprio alento, deixando a sensação de que lhe falta algo. Que somente chegará quando você puder acabar sua obra e se aconchegar em Seus braços. Que assim o seja.

"O essencial é invisível aos olhos"

Há muita coisa que não conseguimos descrever. São experiências íntimas, ligadas à nossa fé, que suplantam as descrições que somente alinham palavras, juntam parágrafos, dão seqüência a páginas e páginas. Muitos o tentam e o que fica no papel não consegue ser o equivalente a um momento de silêncio, em que sopra a brisa em meio às árvores.

Há muita coisa que não precisamos escrever. Até porque, em matéria de fé, para quem crê, pouca explicação é necessária. Para quem não crê, não há argumentação suficiente que o faça crer. No momento em que alguém se dá conta, sente-se contemplado com a graça, os discursos se dissolvem na necessidade, apenas, de um abraço, um carinho, uma lágrima.

Porém, o tempo é terrível: tem a capacidade de levar detalhes, apagar passagens, confundir nossas lembranças. A tal ponto que já não nos dá certeza do que realmente vimos e ouvimos. Mas fica a essência. E o que é a essência? Não peçam que eu a descreva. Vocês não estiveram lá. Posso, no máximo, transpor o suave aroma de um perfume que nos inebriou.

É muita petulância pensar em transpor um aroma para páginas escritas? Sugiro, então, que silencie tudo, abra as janelas e inspire, o mais profundamente possível. Em meio aos cheiros da vida, um, em especial, lhe dirá que seu corpo não está morrendo, mas arfante por um condimento especial: e este, o amor pode lhe dar.

Passados alguns anos da virada do milênio, consigo ver com alguma clareza o que aconteceu. Não entro na discussão semântica se, de fato, o século XXI iniciou em 2001. Acontece que o ano 2000 veio revestido de uma espiritualidade ímpar em toda a história.

No ano que o precedeu, estávamos preparados para enfrentar os destinos do mundo com olhares sombrios. Tudo indicava que caminhávamos para o caos. No entanto, não eram poucos os que defendiam que viver uma virada de milênio promissor dependia de cada um de nós. A paz só poderia ser construída se enfrentássemos os senhores da guerra. E eles existiam. Eram muito fortes e bem mais organizados do que aqueles que apenas tinham como arma os argumentos.

A experiência, que pedi para ser registrada, foi compartilhada por muitos daqueles que tiveram a visão e, depois, conviveram por dez longos anos sem se darem conta de que o tempo passava e que representavam algo de diferente para a sociedade.

Hoje, muitos já estão nos braços do Eterno Descanso. Até o fim de suas vidas, tentaram reencontrar o caminho que mudou completamente o sentido de sua existência. Em vão. Cada um dos lugares onde se viveu esta experiência transformou-se em trilhas abandonadas e difíceis de serem percorridas e lugares de casas em que os tetos e paredes já desabaram.

Fica o que não é físico, mas marca o espírito. E nele são esculpidos sentimentos que recordamos por toda a vida.

Muitos grupos dos Vinte e Um se multiplicaram pelo mundo, preservando e renovando as mensagens que ouvimos a partir daquela tarde de verão, que fazia a virada de 1999 para 2000.

E o que foram os Vinte e Um? Desde a primeira revelação, a cada novo encontro no Monte, deveríamos reunir um grupo de mais quatro pessoas. Em quatro semanas, estávamos com o grupo completo e iniciávamos a mais longa, dolorida, fantástica, agradável experiência de nossas vidas.

Quando olho para trás, fico imaginando o que as pessoas esperavam que estivesse acontecendo conosco: grandes milagres, grandes revelações, grandes embustes?

Não. Não pense que vivemos experiências capazes de nos transfigurar como num passe de mágica. Estes momentos foram especiais e os guardamos com muito carinho, porque deram sustento à nossa fé. No entanto, na maior parte do tempo, tivemos que garimpá-la. Descobrir que acreditávamos sem ter provas, ao menos as palpáveis. E foi o esforço por mantê-la viva e compartilhá-la que me levou a querer repartir com vocês o que aconteceu.

Tenho que agradecer às pessoas que me ensinaram a distinguir entre uma narrativa da terceira e da primeira pessoa. Explico-me. Por origem no jornalismo, minha tendência seria de pedir o registro sempre na terceira pessoa - o sentido impessoal. Seria alguém contando a experiência de outros. Não foi o que aconteceu e tive que me policiar para conseguir escrever na primeira pessoa. Desculpem se, muitas vezes, confundo a primeira pessoa singular e plural. Afinal, eu também tive dúvidas se esta narração foi feita apenas por um. Ou foram todos os que partilharam de momentos sublimes e únicos que precisavam manifestar-se?

Por favor, não se deixe tocar por estas dúvidas. Existem outras, que são mais profundas.

Mas, mesmo assim, em algum momento, você também não quis saber se estava sozinho ao escrever ou se outras mãos acompanhavam as suas, ao registrar o que sentia, no papel ou na tela do computador?

Outro medo é de transformar o que escrevi em discurso. Este é um perigo. Tenho facilidade em me empolgar com aquilo de que falo ou escrevo. Perdão. Esqueçam o que for acidental e mantenham na mente o que disse o meu amado e sempre lembrado Pequeno Príncipe de Saint Exupery: "O essencial é - mesmo –invisível aos olhos".

O Monte da Revelação

A data: 30 de janeiro de 2000. Ultrapassar o rio já foi uma festa. A ponte, construída ainda no Império, tinha o autêntico sentido da realeza. E impressionava. Tudo o que se via a partir do cruzamento da estrada federal com a pequena via do interior era de encher os olhos. Água correndo na parte inferior do morro, brincando por entre as árvores. A poucos metros de distância, a algazarra de famílias que aproveitavam o fim de semana para fazer um piquenique.

Mas, se os olhos fossem subindo, se encantariam com a montanha, o céu azul e a infinitude que, mais do que ver, se pressentia.

Não foi difícil chegar ao lugar da festa. Afinal, o próprio aniversariante, Gustavo, tinha marcado hora no entroncamento para um encontro e, depois, seguir em autêntica "procissão" até o sítio. A entrada era de um pequeno vilarejo, mas a estrada continuava, com barrancos dos dois lados e, antes de chegar à porteira, um córrego, sem ponte, que já tentava para se tirar os calçados e caminhar sobre a areia e as pedras.

***

A recepção era feita por toda a família. Além do próprio Gustavo, ainda havia a esposa, Ritinha, a irmã, Caroline, e os pais, Alfeu e Sandra.

A festa de aniversário, como toda a comemoração que se preza, iniciou de forma discreta, com os assadores atarefados e as mulheres preparando as saladas. Convidados, os mais variados possíveis, precisavam de tempo - e de alguma bebida - para que a aproximação se efetivasse.

Ao meio-dia, cervejas e aperitivos tinham promovido uma grande algazarra, que atingiu o auge nos parabéns, com direito a bolo e discursos.

Depois, tudo se tornou sonolento. Cada qual escolheu uma sombra para descansar e teríamos feito o mesmo se não houvesse uma proposta diferente: havia um sítio, ao lado, que o proprietário dizia ter uma infra-estrutura ímpar. Afinal, o próprio dono o construíra, desde que abriu mão, com a mulher, das comodidades do meio urbano, já aposentado, para uma vida com a dolência própria do interior.

Aceitar o convite para o conhecer foi a forma de espantar o desejo de tirar uma boa soneca, naquele início de tarde. Conhecemos a casa e, do outro lado, chamou a atenção um bosque de árvores nativas, na encosta de um morro. Não houve necessidade de pensar duas vezes. Veio o convite - e não era um convite, era uma convocação: Vamos até lá em cima!

Ao tomarmos o caminho que ultrapassava a casa e ia em direção ao monte, a conversa era descontraída, variando de cuidados físicos até, diante do encantamento com a beleza da vista, projetos que poderiam ser realizados naquele lugar.

Os caminhos por entre a mata nativa eram estreitos e constantemente os galhos dos arbustos acabavam batendo nas pernas, braços e cabeça daqueles que estavam dispostos a fazer um autêntico "programa de índio".

- Alceu, tu te encarregas de um programa de auto-estima, enquanto eu fico com as trilhas ecológicas e os passeios.

- Eu fico com a cozinha e muito tempo na varanda para boas leituras e um bom chimarrão – adiantou Adelaide, parceira de Adilson.

- E eu faço o quê? – perguntou Adilson.

- Aplaina melhor estes caminhos, senão vamos ter que guinchar nossos hóspedes até o topo da montanha. – Provocou Alceu.

- Eu acho que vou cuidar é dos animais – disse Arilson, respirando mais rapidamente e já com um galho de árvore na mão para servir como bastão. - Tem um bom lugar para um criadouro de peixes e ainda posso pensar em alguns cavalos para terapia ocupacional e as vaquinhas para a ordenha da matina.

- Cruz credo! – disse Amélia, esposa de Arilson – Eu penso em vir para cá somente para descansar. Não quero mais trabalho do que já tenho na cidade. E, de mais a mais, seu Arilson, se tu conseguir esta tropa toda, eu sei muito bem que vai sobrar é pra mim. - Colocou as mãos na cintura e, num gesto bem seu, jogou os cabelos para trás - Podes ir parando, sossega teu pito!

Ao chegar ao topo, um pouco pelo cansaço, bastante pela beleza da vista, o grupo foi silenciando. O que os olhos alcançavam era recompensador: por entre os montes, no ponto mais distante, uma bruma juntava o céu e a terra.

O terreno, agora, já não se mostrava tão inclinado, tornara-se quase plano.

Elementos com os quais não estávamos acostumados a lidar na cidade: O único ruído, que era quase um sussurro, vinha da criançada, na beira do rio, e o murmúrio das abelhas. O conjunto acabava transmitindo muita, muita serenidade. Depois da mata, uma plantação de eucalipto e, enfim, o alto. O sol ficara para trás, projetando imagens que pairavam entre o real e o imaginário. Nossa atenção se concentrava na visão que se projetava imediatamente à nossa frente: o rio, com bandos de moleques brincando em suas águas; a pedreira, a mata que ornava outros morros e o cemitério.

Ninguém mais falou. Por um sentimento de finitude e a necessidade de partilhar aquele momento, um dos casais se deu as mãos, enquanto o outro se abraçava. Apenas Alceu estava só.

Só não estávamos preparados para o que aconteceu em seguida.

Alceu havia ficado para trás, preferindo a sombra dos eucaliptos. A impressão que tivemos foi a de que todos os ruídos haviam cessado. Voltamo-nos, quase ao mesmo tempo. Havia um halo de luz em torno de seu corpo que, lentamente, se deslocava da terra. Naquela paisagem, o que poderia ser assustador acabou envolto num clima de magia.

O estranho é que a figura já não era de Alceu, mas etérea, transparente, com formas, mas sem cor.

Entre atordoados e amedrontados, um a um fomos nos ajoelhando, enquanto a figura se mantinha erguida à nossa frente, um pouco acima do chão.

A voz que então falou não vinha da forma, mas de todos os lados, com muita suavidade.

- Vocês foram chamados ao Monte da Revelação. São escolhidos para uma grande experiência de vida. Serão, ao todo, 21. A cada 21 dias, mais quatro deverão vir aqui e, ao final, os três últimos, que serão os primeiros. Não se assustem. Não contem nada a ninguém. Mantenham-se juntos. Vocês saberão o que fazer.

- E o que diremos? – quis saber Adelaide.

- Vocês não são pregadores. Vivam. Apenas vivam e ajudem a viver. Acreditem nas crianças, nos jovens. E não deixem que termine em vão as vidas que o Eterno Descanso fez chegar ao fim. O bom senso acabará ditando os seus caminhos. Não estabeleçam leis que vocês não querem para vocês. Haverá alguém que os ajudará a organizar seus pensamentos. Ele surgirá no devido tempo. A autoridade que exercerá não será a que conhecem. E a exercerá por pouco tempo. O suficiente para que nunca mais o esqueçam. E, mesmo que o esqueçam, em alguns momentos, o Eterno Descanso será capaz de recordá-lo como o instrumento que ajudou a trazer paz à terra.

Em seguida, a brisa se transformou em vento, vergando os eucaliptos num sussurro triste e soturno. A forma foi descendo ao chão e, quando nos aproximamos, havia apenas o corpo de Alceu, desfalecido. Não foi difícil acordá-lo. Difícil, quase impossível, foi convencê-lo do que havia acontecido.

***

Ainda ficamos algum tempo sentados na grama, pensando e tentando organizar as nossas sensações. Não havia como chegar a um denominador comum: cada um vira de um jeito diferente. Menos Alceu. Este ficou calado o resto do tempo, não conseguindo acreditar no que dizíamos.

Pior que isto, o fato de não lembrar de nada, tornara-o cético, com relação ao que contávamos. Uma característica que, dizia, era inerente à condição de ser um solteirão.

Por alguma estranha forma de cumplicidade, a primeira coisa que ficou estabelecida era que, por enquanto, apenas os cinco saberiam do acontecido.

Como não conseguíamos chegar a um consenso, resolvemos voltar e marcar para, em uma semana, fazermos um encontro.

A descida da montanha já não teve a mesma graça da subida. Pela primeira vez, nos demos conta de que havia um charco - uma parte molhada do terreno que nos impedia de circular livremente por toda a área.

***

A noite foi se aproximando e mostrou que tinha um forte colorido para nos oferecer. Já que estávamos ali, e não sabíamos por que, resolvemos ficar mais um pouco.

Aqueles que não eram do grupo foram saindo da propriedade e restou, além do pôr de sol, uma agradável reunião.

Foi então que iniciou a discussão. Adelaide defendia a necessidade de conservar aquela área.

- Eu não sei bem o que se passou. Não tenho muita cultura para explicar. Mas que algo forte nos aconteceu, ah, isto eu sei que aconteceu. E precisamos dar um jeito pra que este homem não venda aquela área. - Foi consenso. Só que alguém tinha que fazer uma proposta que ninguém sabia qual era. Nem de onde arranjar o dinheiro para cobrir a oferta.

Quando já havia pouca luz, Adilson voltou à cerca que dividia as duas propriedades. Seu João o observava da frente da casa e se aproximou. A pergunta foi direta:

- O senhor tem vontade de vender sua chácara?

- Mas bá, tchê. É só o que eu penso. Tenho dez hectares de terra que não produzem nada. Meu filho e minha filha já foram para a cidade. Eu e a mulher queremos vender e voltar para a cidade, já que as doenças estão começando a tomar conta.

- Pensa, então, numa proposta. Vou te procurar ao longo da semana - garantiu Adilson.

Apertaram-se as mãos e o grupo foi deixando o sítio. Contra a vontade, mas a vida continuaria na segunda-feira.

E a estrada ainda era longa. Afinal, entre o sítio e Serra Dourada estavam 120 quilômetros a serem percorridos.

***

Alceu estava de carona com Adelaide e Adílson.

- Afinal – quis saber Adílson – este teu bendito trabalho não impede que façamos nossa excursão à serra, como havíamos planejado?

- Deixa de te fazer de rogado. Tu sabes que dar uma arejada vai ser bom para o teu trabalho. Ficar somente na frente do computador e dos livros deixa qualquer um meio neurótico.

- Não, Alceu, isto não é uma indireta. Isto é uma direta. Tu já te classificas de solteirão inveterado. A gente sabe que não és. Mas se ficares trancado em tua masmorra é isto o que vai acontecer.

Alceu sabia que os casais estavam esperando por ele para definir o passeio à serra. Achava que iria perder muito tempo, pois tinha muito que fazer em seu trabalho na Escola.

Havia esquecido que o homem põe e Deus dispõe. O seu precioso tempo seria gasto com muita coisa que ainda não imaginava. A passagem pela serra seria uma das formas de começar a trazer de volta um Alceu que ele julgava devidamente morto. E enterrado.