O direito a um sonho


Diversos programas de televisão em nível nacional ganham audiência com quadros em que oferecem a reforma ou a construção de uma casa. Caso parecido aconteceu em Pelotas no final do ano passado quando dona Conceição, que adota crianças em situação de risco há muitos anos, viu realizado o sonho de transformar um conjunto de puxadinhos em um espaço funcional capaz de abrigar e atender às principais necessidades de crianças e adolescentes.

Quase sempre, quando os sorteados são colocados diante do dilema: reformar a casa ou uma casa nova, não há muitos que duvidem: tudo novo, casa e toda a mobília. Impressiona, sempre, a precariedade – e com certeza isto é o que dá audiência – dos lugares onde as pessoas vivem, com a torcida e a emoção de que uma casa nova signifique um novo tempo, com novas chances e novas perspectivas.

No entanto, o casal sorteado em um dos programas, por uma carta enviada pela filha, teve o pedido inusitado da avó para serem preservados os pertences do marido já falecido, porque ela precisava de um espaço que a mantivesse ligada ao seu passado, um elemento que a unisse a tudo o que passara com alguém com quem construíra uma vida.

O apresentador teve dificuldades para entender porque seria mantido um conjunto de móveis velhos, numa casa nova. Mas a insistência da idosa tornou evidente que não era apenas uma questão de teimosia, mas sim de alguém que sabe o quanto é bom o novo que se pode conseguir, mas que são os elementos do passado que nos dão direito a um sonho, as lições tão necessárias para não errarmos no futuro.

As cenas finais sempre são do comparativo entre o que era antes: móveis estragados, casa mal cuidada, pouca luz e muito entulho; com o que vem agora: mobiliário funcional, tudo bem arranjado, iluminação adequada e limpeza. Mas, a última sequência acabou sendo a imagem fechada num rosto idoso, marcado pelos sulcos do tempo e de onde uma lágrima procurava espaço para dizer que estava grata, mas que não abria mão do seu passado, da sua história, da sua própria identidade. Uma lição: mudem-se móveis, estruturas das casas, mas – em qualquer situação – preservem-se as pessoas.