O novo lá e cá


Acompanhei com grande interesse a disputa entre os Democratas, nos Estados Unidos, para saber quem seria candidato à presidência. As duas candidaturas são algo completamente novo para os americanos: uma mulher e um negro. Engraçado é que, numa avaliação superficial, sempre nos enganamos, achando que uma vitória dos Democratas é benéfica para o Brasil, quando é o contrário, pois os Republicanos são mais abertos para políticas internacionais menos protecionistas.

Mas não era somente este o motivo do interesse. Além da candidatura de Barack Obama ter mobilizado parcelas da população marginalizada nas prévias (ainda não são as eleições, mas a escolha do candidato do partido), também havia o “novo”, que, além do carisma do senador, derrotou Hillary Clinton: disposição para mudanças como há muito tempo não se via, naquele país, professada com ênfase mais pessoal do que política.

No entanto, o “novo” poderia ter sido sufocado por interesses da máquina partidária, colocando a também senadora na chapa como vice. As pressões foram terríveis, no entanto, Obama deu-se conta de que, neste momento, não é ele quem precisa do partido, mas os Democratas que precisam de Obama para poder desbancar os Republicanos. Tendo suportado todas as investidas, reconheceu o “histórico de serviços prestados” por Hillary na administração pública do país, mas preferiu apostar naquilo que pregou durante toda a campanha: “ares novos chegando”.

Claro que, sabemos, ainda deve passar muita água sob a ponte. No entanto, tendo resistido a todos os lobbys para que abrisse mão de seus princípios e indicasse a vice-presidente, também terá que seguir esta mesma cartilha para outros temas como as incursões americanas em solo estrangeiro, bancando o Xerife do Planeta.

Pena é que a mesma lição não seja aprendida pelos políticos brasileiros que, muitas vezes, sob a explicação de que é necessário “preservar a governabilidade”, envolvem-se em escândalos como estão envolvidos o governo federal e do estado.

A diferença entre o “novo” lá e o “novo jeito de governar” aqui é que lá se procuram novos políticos, com perfil diferenciado dos atuais. Enquanto aqui, administrações após administrações, governantes se tornam reféns de grupos político-partidários – e até administrativos - que, embora podendo ter novos nomes, sustentam a mesma composição: trocam os governos e conserva-se a estrutura de poder. O que faz com que amarguemos a indiferença eleitoral da nossa população. Um dia ainda chegamos “lá”.