O pão nosso de cada dia


Quando criança, gostava de sentar à mesa da cozinha (elas eram enormes - talvez a perspectiva da visão da infância) e ver minha mãe e tias sovarem a massa do pão. Era preciso paciência, não podia haver nervosismo, nem outro problema (com o qual as mulheres convivem periodicamente), porque, então, a massa “desandava”. Depois, era preciso um tempo para a massa descansar, coberta por um pano, e, só então, ir ao forno.

Foi a lembrança que me veio quando fiz, aos 55 anos, pela primeira vez, um pão. Claro, não tinha todo aquele ritual, porque feito numa máquina elétrica, mas respeita as mesmas etapas: é preciso sovar a massa, para unir todos os elementos; segue-se um tempo de descanso em que a máquina se mantém em silêncio; e o processo de assar, em que a massa branca vai tomando forma e mostrando a coloração peculiar a um pão, crescendo e tornando-se o alimento pelo qual lutamos no nosso dia a dia.

Aqui em casa, o piloto oficial da máquina de pão é o meu pai. Neste momento, ele está provisoriamente liberado desta função para poder se preocupar com a sua saúde. Então, entrei em ação e aprendi a fazer pão e, até – invejem! – a cozinhar pinhão! Tornei-me um autêntico dono de casa. Não sei se sou o número dois, três ou quatro, na ordem daqueles que executam as tarefas domésticas, mas isto não está me preocupando.

Fazer estas pequenas coisas tão necessárias a uma rotina de nossas vidas tem feito a diferença em não desperdiçar aquilo que outros fazem e que não valorizamos: o pão à mesa é obrigação de alguém; o leite aquecido surge do nada; a criatividade em procurar um cardápio diferente todos os dias não é minha preocupação.

Quem lida com esta rotina sabe que alimentar uma família com criatividade é um calvário de todos os dias. Eu estou aprendendo a ser enfermeiro, acompanhante e, até, cozinheiro. Estou aprendendo a ter a tolerância (poderia ser paciência?), que nunca foi o meu forte. Cada pequena vitória ensina algo muito simples, como esquentar um alimento, alcançar uma medicação, ou simplesmente valorizar uma máquina que desliga e me oferece um alimento novinho, apenas pedindo uma cobertura de manteiga e uma xícara de café: o pão nosso de cada dia.