O bafo na nuca


Existem momentos em que, para entender uma situação, o melhor é encontrar uma analogia, isto é, uma comparação: lembrar de uma situação vivida na história recente, para entender outra, que estamos acompanhando na atualidade. Pois encontrei uma forma de explicar melhor o que está acontecendo em Brasília, onde as trapalhadas se sucedem, às nossas custas.

Ouvi, há poucos dias, a declaração de um jogador de futebol, depois do sucesso de seu time, após um longo jejum de vitórias. Confessou que “o bafo na nuca” da direção, jogadores e técnicos, com ameaças da torcida e possibilidade de desemprego, levou-os a se superarem em campo. Aí também existe uma crise de vergonha, pois há uma pergunta impossível de não ser feita: “eles não são pagos para jogar? É preciso o bafo na nuca para agirem profissionalmente, cumprirem com o que é o seu meio de subsistência?” Sendo um profissional consciente, não haveria a necessidade de pressão para jogar bem e vencer.

É o que precisa acontecer em direção a Brasília: colocar o “bafo na nuca” dos políticos para saberem que a sociedade não está contente. Se torcedores são capazes de pressionar de tal forma que os jogadores fazem pacto para ganhar, será que nós - “torcedores” pela vitória da ética, da moralidade, da transparência, de um sistema público que vença a nosso favor - não podemos “marcar de cima” os que acham tão fácil livrar-se, cinicamente, de dar explicação àqueles que os elegeram?

Tem gente dizendo que elegeu o político para trabalhar e, agora, é tudo com ele. Pois está enganado. Em qualquer lugar - numa fábrica, numa empresa, num campo de futebol, em política - é preciso a presença do “patrão”, cobrando bons resultados. Falei a este respeito numa palestra, pensando estar sendo chato, mas me surpreendi com o depoimento de uma senhora, que perguntara ao neto se era possível localizar o endereço de um determinado deputado, na Internet. O neto disse que sim e ela pediu que enviasse um recado, por e-mail, dando a sua opinião. Ficou surpresa ao receber a resposta, possivelmente padronizada e enviada de forma semelhante a todos os eleitores. Mas, concordo com ela, mostrou que a demonstração de interesse acaba fazendo eles pensarem duas vezes antes de tomar uma decisão.

“Toda comparação é manca”, já dizia um mestre. Talvez esta também seja, mas vale a pena encontrar formas de fazer nossos representantes conhecerem o nosso pensamento a respeito das questões públicas. Quem sabe, este pode ser um saudável “bafo na nuca”.