O coqueiro da minha rua


Creio que a melhor definição que se pode dar para um cronista é que ele retrata com a alma momentos e situações que vive em sua cidade. Carinhosamente, torna universal o que pode parecer que é apenas particular.

É este o pensamento que me vem à mente quando ouço todos os comentários que são feitos a respeito da necessidade de arborizar Pelotas. Percorro as ruas da cidade e tenho que concordar: ela seria mais bonita se tivesse mais árvores em suas calçadas e praças; se houvesse mais flores nos jardins que ficam diante das casas. E se houvesse carinho e consciência da necessidade de preservar os espaços públicos.

Tenho uma atração muito grande por alguns lugares, em Pelotas. A avenida dom Joaquim, por exemplo. O Laranjal. O entorno da barragem. A Cascata. São, enfim, inúmeros os lugares que podem acolher a população para momentos de lazer, entretenimento, convívio.

Pena é que falte um espírito de conservação com o pouco que temos. Infelizmente, é comum ir caminhar na avenida dom Joaquim em sábados, pela manhã, ou mesmo em domingos, e encontrar os rastros da fúria daqueles que têm hábitos noturnos e que não resistem, no seu regresso às tocas, em derrubar lixeiras e bancos, espalhar o lixo, deixar a sua marca de insanidade.

Já me disseram que é “bobagem de adolescentes”. Não consigo acreditar que seja apenas isto. É um espírito de vandalismo que extravasa algo de pior: agride uma cidade que está dormindo, tranqüila, pensando que nas ruas passam, apenas, pessoas civilizadas.

E o coqueiro da minha rua? Pois é, quando viemos morar em Pelotas, a rua João Jacob Bainy, que hoje corta a Santa Terezinha em direção ao Fragata, não era mais do que uma estrada. E no meio desta estrada havia um coqueiro. Os mais antigos moradores da Vila Silveira (João Jacob Bainy e adjacências) lembram, com certeza. Quem entrava na Vila era saudado por seus galhos, que também serviam para o descanso de ciclistas e charretes, bem como de lugar para todos os “tarzãs” mirins da redondeza.

Infelizmente, uma disputa entre bêbados acabou cortando o coqueiro que, ainda hoje, poderia ser um belo símbolo de preservação do que temos e incentivo a que se arborize Pelotas.

Ganharíamos todos nós, com mais verde, mais espaços de convivência. Saudemos as iniciativas que desejam ver mais praças em nossa cidade. Mas, também, cuidemos de nossos “meninos” crescidos para que aprendam que os parques, praças e avenidas são de todos. Todos, inclusive deles.

E o cronista? Pois o cronista tem o coração inclinado para pensar que, como pelotenses, de nascimento ou de coração, queremos ver nossa cidade com melhor aspecto. Custa fazer um esforço?