O dedo de Deus


Ele está sempre ali, na entrada da avenida dom Joaquim, quem vem da Fernando Osório. Ao chegar, vejo seus galhos abanando. Abençoa quando eu passo. E ondula, numa suave despedida, quando o vislumbro ao longe. Durante o inverno, seus braços desnudos têm uma majestade inconteste. Durante a Primavera, seus brotos começam a projetar a sombra que lhe dá ainda maior aconchego.

Sempre o pensei como o dedo de Deus. Porque é uma árvore que não se estende em linha reta em direção ao céu. Pelo contrário, levemente inclinada, dá a idéia de que indica, muito mais do que impõe um caminho.

Pensei nisto quando vi uma outra cena, na mesma avenida dom Joaquim: Um rosário. E um rosto. Serenamente triste. Esta era a imagem que me ficava quando, nas minhas caminhadas matinais, passava por aquela senhora, que andava sempre no sentido contrário ao meu, já vergada pelo tempo, olhos baixos, um rosário na mão e um balbucio nos lábios.

O que me dizia? Simples. Que aquela forma de oração, em que se repetem pai-nossos e ave-marias, era o momento em que, mesmo caminhando, a fazia mais próxima do Senhor. Quantas angústias, quantos problemas, eram deixados de lado, ou melhor, eram celebrados naquele momento?

Não creio que, nas vezes em que rezo, tenha a força daquele olhar que é capar de serenar, mesmo na tristeza. Porque me diz que ali está alguém que vive um momento triste, mas não é um ser triste.

No andar de minha caminhada, rezei por aquela desconhecida. E senti que ela passou a reconhecer-me: levantava os olhos e dava um bom-dia. Deus sabe o quanto alguma energia positiva, vinda de alguém que se faz cúmplice num momento de dor, é capaz de auxiliar, como o bálsamo, a doer menos e, até, ajudar a cicatrizar nossas feridas.

E, no mesmo caminho, duas indicações sempre foram capazes de renovar minha vontade de continuar: o dedo de Deus, carinhoso, mas marcante em todas as minhas andanças pela vida; e uma presença orante dizendo que não importa o quanto as vicissitudes de um momento difícil podem fazer parecer que seremos soterrados. Sempre haverá uma esperança. Na oração. Na presença. No ser: solidário com o outro e com Deus.