O direito de voar


A Alessa foi uma criança que demorou a andar sozinha. Pelo jeito, um susto fez com que tivéssemos que utilizar de artimanhas: primeiro, uma fralda passada sob seus braços; depois alcançar a ponta de um pano com alguém o suspendendo; por fim apenas o pano em sua mão. Quando o soltou, durante algum tempo, ainda mantinha o bracinho no ar, como quem suspende um ponto de apoio ilusório.

A lembrança veio em função de uma outra imagem muito bonita que circula na Internet: a de que a águia foi ter os filhotes no ponto mais alto do penhasco. Criados, já com penas nas asas e prontos para voar, apenas era necessária uma atitude: lançá-los ao vazio para que pudessem alçar vôo. Mesmo com receio de quem os acalentou durante longo tempo, a águia jogou-os, um a um, em direção ao que seu coração dizia que era um precipício. Nas asas do vento, todos voaram e partiram para experimentar a própria vida.

Nos dois casos, fica claro que um pai ou uma mãe pode indicar caminhos, mas não pode caminhar pelo filho. Não temos plena certeza do que lhes vai acontecer. Acontece de, numa mesma família, onde os pais têm "absoluta certeza" de que educaram os filhos da mesma forma, não apresentarem os mesmos resultados. E cada um tomou um caminho, sem pensar se foi certo ou não.

Hoje, questiona-se o papel da família na formação do jovem. É fundamental, mas não só ela. Aí existe a responsabilidade, também, do estado, da igreja, da educação formal, dos meios de comunicação, etc.

Em família é mais ou menos como na medicina: não há regras que se apliquem a todas as relações. Cada caso é único. Não andamos pelos outros, o máximo que podemos fazer é estender a mão, oferecê-la em auxílio. É o outro quem tem que aceitar ou não. Inclusive no caso dos filhos. E é um mistério saber os motivos que levam à aceitação ou à rejeição.

Não há como voltar atrás. A história anda para frente. Infelizmente, na maior parte das vezes, nem contando os erros que cometemos auxilia nossos filhos e alunos a não os repetir. Vale a antiga regra: só se aprende quando se bate com a própria cabeça!

Pode ser que nossos filhos, durante algum tempo mantenham a mão erguida em busca de um apoio que está dentro deles; pode ser que leve o que nos parece uma eternidade até planarem e então comecem a voar. Mas é assim mesmo: só se vive uma vez. Não vale a pena desperdiçar uma chance de se amar, na liberdade de quem tem o direito de voar.