O grande segredo


A frase foi dita em tom de brincadeira, mas uma daquelas brincadeiras onde se esconde uma verdade que não desejamos enfrentar: “vamos nos encontrar mais seguidamente porque, senão, a partir de agora, na nossa idade, poderemos nos ver somente em velórios!” Parece humor macabro, mas é a marca de uma das fases da vida: vivemos de forma intensa em grupos enquanto criança, adolescente e jovem. Talvez o grande momento deste convívio seja o período de faculdade, onde as juras de que estaremos sempre juntos são constantes. No entanto, passada a formatura, os ânimos arrefecem e a rotina em atividades profissionais e em outras relações marca uma tendência próxima ao individualismo.

Mas chega um tempo em que sonhamos reencontrar aqueles com os quais vivemos intensamente, em que o futuro parecia um tempo interminável e os desafios apenas etapas a serem vencidas, com os nossos amigos, claro. Infelizmente, ou felizmente, o grande número de “amigos” passou a ser contado nos dedos das mãos e o convívio uma arte em que precisamos vencer a rotina estabelecida, que atende nossas necessidades básicas: poderia sair para encontrar amigos – mas estou com um filme interessante para ver! O joguinho de futebol com a turma – mas tínhamos pensado em fazer um churrasco apenas para os de casa! Convidar o fulano e a beltrana para ir à zona rural – mas suja o carro e lá nem tem sinal de celular!

Neste tempo em que um dos livros que faz o maior sucesso de vendas leva o nome de “O Segredo” é preciso dizer o óbvio: traçamos nossos destinos a partir de nossas próprias opções e da energia com que nos alimentamos e a que vem dos mais próximos. Então, a frase inicial tem sentido: não adianta tentarmos “reviver velhos tempos”, pois já não são os mesmos: nossos cabelos caíram, nossas barrigas estão um pouco mais largas, nossa pele já não é tão lisa. E, ao invés de 20, possivelmente, agora serão 50 ou 60, pois se agregam filhos e, em alguns casos, até netos.

São novos tempos e novos convívios, possíveis de acontecer por meios eletrônicos, mas não bastam: ainda não se inventou uma tecnologia capaz de superar o “olho no olho”, onde se dão os encontros e desencontros necessários para confirmar o que disse Thomas Merton: “homem algum é uma ilha”. Ainda bem, pois as pontes que podem unir estão aí, na vivência do dia a dia, onde o maior “segredo” é a capacidade de tolerância – não basta contar até dez - e muito humor para rir até mesmo das nossas próprias trapalhadas de vida.