O próximo capítulo


Não há como restaurar valores se não formos capazes de restaurar referências. Foi o que disse o papa Bento XVI quando, na Espanha, pediu o empenho para que se recupere o sentido da família tradicional.

Alguns comentaristas fizeram a leitura mais fácil: o papa está pedindo o retorno aos tempos antigos, com o seu modelo de família, centralizado na figura paterna. Não tenho autoridade para falar pelo papa, mas não creio que fosse esta a sua intenção.

Muitas foram as correntes na história que buscaram formas alternativas de convivência, especialmente nos primeiros anos da vida e na juventude, quando são sedimentados valores e referências. O que conseguiram? O que temos hoje: a desagregação e a relativização de valores.

Não há mais como se voltar atrás. Mas uma reflexão, com uma tomada de consciência e o reencontro com alguns valores, é possível e necessário.

Recentemente, ouvi que “novela é novela, vida real é vida real”. É o que sempre acabam nos dizendo quando são questionadas as liberdades tomadas por certos autores e diretores no trato destes supostos “espaços de ficção”.

Pois, ao final da novela das 20 horas, a atriz Fernanda Montenegro se mostrou surpresa, pois o público deu à sua personagem, depois de todos os desmandos acontecidos durante os seis meses de suas vilanias, a recompensa de poder usufruir um belo apartamento em Paris, juntamente com o amante (roubado) de sua melhor amiga.

Que já estamos vivendo uma crise de valores morais, isto não resta a menor dúvida. O que já não foi quebrado está sendo relativizado, levando em conta a fórmula mais safada de que “se o mau exemplo vem de cima, o que fazer?”

Quando olhamos a rua temos bem claro o que se passa: motoristas que não respeitam pedestres; pedestres que não respeitam sinalização de trânsito e autoridades que fingem não ver o que está acontecendo. Tudo em nome do jeitinho brasileiro.

Os autores dizem que “não fazem a vida”, apenas “refletem aquilo que acontece no dia a dia”. É um ciclo, que precisa ser quebrado em algum lugar. Exacerbamos os contra valores e o que esperamos, especialmente dos jovens?

Quando o sexo, a vaidade, o individualismo, são dados como valores maiores, o que queremos que aconteça? Não adianta dizer que o indivíduo precisa ter liberdade para escolher. Sejamos honestos. Em certas fases da vida, o que se passa na telinha seduz e se alça como referência. Infelizmente, pautando os próximos capítulos da vida. E não do folhetim do horário nobre.