Os jornais estão dizendo


Padre Zezinho

Os jornais noticiaram à farta que cerca de 250 crianças, procedentes do Benin - na África - que seriam vendidas para trabalho escravo na África, estavam no mar em perigo de morte por sujos traficantes. Que há traficantes de crianças há e que há trabalho escravo, há. Tanto lá como aqui. Praticamente todos os órgãos de imprensa deram a notícia.

Parecia uma triste verdade. Menos mal. Parece que foi furo errado. Agora vem a notícia de que talvez tenha sido alarme falso. Os jornais não checaram. Confiaram demais na fonte, que confiou na fonte, que confiou na fonte. Não é que o problema de escravidão de crianças não exista, mas aquele parece não ter existido. E daí, como é que ficam os jornais?

Eu mesmo comentei em artigo este drama terrível de escravidão no limiar do terceiro milênio. Onde houver gente sem coração e ávida de lucro, vai haver salário aviltante e escravidão. Mas vale a pena rever nossas leituras de jornal. Sou professor de comunicação num instituo da Igreja Católica e vou sugerir aos meus alunos que, quando escreverem sobre alguma notícia dada por todos os jornais, ainda assim tomem cuidado e digam: “ os jornais estão dizendo”...

De tanto confiar na Igreja, os fiéis, às vezes, esquecem que há pregadores que mentem ou citam a Bíblia de maneira errada. De tanto gostar de seu noticiário e de seu jornal favorito os telespectadores, ouvintes ou leitores, às vezes, esquecem que há fontes que enganam os jornais e há jornais que dão a notícia não da fonte, mas da comadre que pegou do balde da outra comadre que por sua vez pegou do balde da outra comadre... Um amigo meu, professor muito engraçado lia alguns jornais de pé e com um pé bem atrás... Brincava, dizendo que aquele era o único jeito de ler determinados jornais sensacionalistas.

Brincadeiras ou preconceitos à parte, leiamos todas as notícias com senso crítico. Aquilo que está sendo dito foi escrito por alguém que não é anjo nem tem asas. Pode não ser aquilo que eles estão dizendo. É uma pena que bem poucos jornais tenham a hombridade de admitir que talvez tenham dado a notícia errada e sem checar as fontes... Eu, por exemplo, errei. Confiei na água do balde que veio de outro balde e pensei que fosse água potável... Escrevi sobre crianças escravas. A matéria é sempre válida porque o problema existe, mas parece que o tal navio não tinha tais escravos. Aguarde novidades. Pode ser que alguém ache aquelas 250 crianças, ou quem deu a notícia original... Aí a gente escreve sobre a cidadania e os boateiros de plantão...