O sopro de Deus

Monica Abeid


 Lá vinha Ele. Primeiro apenas um pequeno ponto luminoso a se destacar sobre a imensidão do verde esmeralda do grande lago, em seguida uma silhueta prata brilhante que à frente do sol poente do horizonte ficava mais e mais claro e vibrante. Eu, como todas as tardes àquela hora, sentada em um velho tronco abandonado a beira do lago e com os pés dentro da água transparente observava e esperava a visita de sempre. As pequenas ondas do lago quebravam aos meus pés fazendo aquela suave espuma branca que, ao contato com a luz da tarde, se tornava rosa, lilás e azul escura. Esperava pacientemente e emocionada o grande momento de ver o rosto do visitante. Agora Ele, mais próximo, vinha deslizando sobre as águas. Os cabelos compridos pelos ombros ondulados pela suave brisa, a barba lhe encobrindo o queixo e já mais próximo podendo-se perceber aqueles olhos dourados sorridentes e a boca levemente entreaberta mostrando os dentes fortes num manso sorriso amoroso. Ali estava Ele à minha frente com sua túnica branca sem contormos os quais se perdiam e mesclavam com a luz do sol às suas costas. Seus olhos fixavam os meus e no seu silêncio podia entender tudo e me sentia, como sempre acontecia, completa e perfeita! Nada mais tinha importância a não ser aquele momento de êxtase e de paz sublime. Os pedidos repetidos para serem despejados naquela hora, as dificuldades e desilusões se perdiam e se tornavam mesquinharias diante de tanta beleza e perfeição. Então Ele estendia suas mãos sobre minha cabeça e muma carícia sem toque revigorava meu espírito para mais um dia de vida. Se virava suavemente, retornava lentamente ao horizonte e seus traços, se mesclando ao colorido do entardecer, sumiam misturados com a bruma do lago. 20/ago/98