Os privilégios da memória


Seguidamente ouço dizer que as pessoas têm mais facilidade em recordar coisas que ficaram num passado remoto do que aquelas acontecidas recentemente. Os especialistas orientam que, a partir do alvorecer da terceira idade (é um eufemismo para dizer que estamos chegando à velhice, a partir dos 50 anos) se pratiquem exercícios que possam “azeitar” nossos neurônios.

Pois o Dico não tem este problema. Depois que foi encostado pela Previdência, com bastante tempo à disposição; além de guarda fiel das ruas da Vila Silveira a partir dos primeiros raios de sol, passa com um bloco de palavras cruzadas, numa atividade constante para sua memória.

Numa mão o bloco composto por recortes retirados de jornais de circulação diária; na outra, um lápis ou uma caneta, erguidos quase à altura da cabeça. E pensa quantos quadrinhos são, que letras já estão colocadas. Entre as horizontais e as verticais, passa o tempo e faz um belo exercício de relaxamento e aprendizado.

É este exercício que eu vejo sendo feito por muitas pessoas que chegaram à terceira idade, com o intuito de poderem sentir-se bem, sem o estigma de que idade avançada é sinônimo de falta de memória.

Pois é para a memória que apelamos, quando desejamos resgatar informações. No entanto, mesmo que juremos de pés juntos não ser verdade, ela é seletiva: resguarda apenas o que nos interessa. O resto? Ora, o resto se descarta!

Veja se não é o caso de alguém falecido: “coitado, o fulano era tão bom!” Normalmente, esquecemos de lembrar que, na verdade, em alguns casos, o fulano foi um crápula. Mas, bastou morrer para que a memória nos pregue esta peça: “está morto, esqueça-se de tudo o mais. E recorde-se apenas de suas benemerências.”

Claro que para esta “abordagem seletiva” não há remédio. Faz parte dos nossos acertos e desacertos com a natureza. Mas para todo o resto, há solução, sim.

Não se constranja de dizer “esqueci”. Mas se esta afirmação estiver se tornando constante, procure ajuda. Um bom médico, ou psicólogo, com certeza, vai dizer que precisa relaxar, possivelmente fazendo uma boa caminhada, prestando especial atenção àquilo que verá por onde passar. Quem sabe, até, dirá que fazer palavras cruzadas é um santo remédio para estimular sua memória.

Pode ter certeza, não custa tentar.