O tempo de se viver


O tema é bastante difícil, mas necessário que seja encarado e discutido: até quando temos o direito de prorrogar a vida, especialmente quando o paciente é idoso e seu quadro não demonstra qualquer chance de reversão? Foi o questionamento que me fiz ao ouvir, recentemente, depoimentos de pessoas hospitalizadas em situação crítica e que foram conduzidas a Unidades de Tratamento Intensivo – UTIs – para minorar seu sofrimento. Registraram nunca terem passado por uma experiência “de tanta solidão”, preferindo ficar onde tivessem o acompanhamento de familiares e amigos, mesmo com a perda da qualidade de tratamento.

Olho no olho com quem os acompanhou até o final, dei-me conta de que não há como estabelecer regras: a única que pode vigorar é a do bom senso, unida com as regras que o próprio coração consegue discernir. Este mesmo olhar que, tendo contemplado a dor, também é capaz de encarar amigos e familiares, depois da partida, e dizer: “fiz o que foi possível, agora está com Deus!”.

Confesso que, nestes momentos, penso mais naqueles que ficam do que nos que partem. Minha presença é sempre a vontade de dizer: “estou aqui, contigo, para o que der e vier”. Mais nada: solidário num momento de passagem - necessário, dolorido - que não precisa ser exacerbado por aqueles que fazem questão de, vendo uma ferida aberta, aprofundá-la ainda mais, por gestos, palavras e olhares.

Fico pensando naqueles que já partiram das minhas relações e sinto pena de que, em alguns casos, não tenha estado ao lado para pegar sua mão e dizer: “vai em paz, não estás nos deixando, apenas vais nos aguardar num lugar diferente, melhor”.

Foi o que me animei a fazer quando acompanhei a tia Toninha. Como minha prima Leli não pode estar presente, segurei sua mão e disse que ali não estava sozinho, mas trazia o carinho e o desejo da filha de que partisse em paz. Foi reconfortante, porque senti que éramos três fazendo uma despedida! A mesma experiência que me contou a Pininha, quando acompanhou um amigo até a última morada. Toda a sua tristeza e lágrimas sumiram quando sentiu a serenidade com que partia aquele que tanto amara.

Nos momentos em que se vive com alguém num leito de doença e este acaba nos faltando, o maior consolo vem da fé - não importando qual seja - porque pode haver dor e sofrimento, mas não há desespero e agonia. Há a certeza de uma luz que chega capaz de iniciar a regeneração da ferida causada pela perda.