O tempo não passa, voa...


O meu bairro tinha dois cinemas: o mais antigo, “Principal”; e o mais recente, “Tupy”. Nas décadas de 60 e 70, suas cornetas difundiam filmes, shows, notas e músicas. Aos domingos, um deles transmitia, a partir do meio-dia, a “grande parada de sucessos” de uma emissora de rádio. Era o máximo para quem queria dar uma namorada na frente de casa, enquanto os pais sesteavam; jogar bolinhas de gude ou trocar gibis.

Foi um tempo sem pressa em que, nas paradas, as músicas ficavam até um ano na primeira colocação e as letras gravadas em nossas memórias. Hoje, ouço com muita freqüência que “o tempo não passa, voa”. Num piscar de olhos, foi-se o final de ano; em seguida, o Carnaval e a Páscoa; passa julho e já estamos vivendo um novo final de ano. Na Escola, dizíamos que o primeiro semestre era devagar, mas o segundo, se não cuidássemos, iria a jato. Ultimamente, se descuidarmos, passa também o primeiro, sem perceber em que foi gasto!

Atualmente, muito se fala em “qualificar” o tempo, definindo prioridades profissionais e pessoais. No segundo caso, é preciso cuidar para não ficarmos reféns da espera pelo outro, pois facilmente nos acomodamos às pequenas rotinas, que não temos vontade de mudar (um amigo fez um ato de fé de que antes do Natal nos visitaria e marcaria um jantar. Estou esperando por ele, sentado).

O que mudou? O ritmo como enfrentamos a vida. Temos muitas oportunidades, especialmente na área da comunicação, que suprem as necessidades de ocupação do tempo, mesmo que atrofie um lado fundamental do ser humano: a convivência, mais difícil, pois exige atenção especial por não termos um controle remoto do outro, que pode surpreender, positiva ou negativamente.

Hoje, não se pode fazer uma “parada de sucessos” pela rapidez com que as músicas são produzidas, consumidas e descartadas, mas podemos repensar a forma como gastamos nosso tempo. Para os saudosistas, infelizmente, não volta o convívio das matinés barulhentas onde a perseguição aos bandidos era acompanhada de batidas com os pés no assoalho, obrigando a parar a fita e restabelecer “a ordem”.

Para além dos recursos de informática que nos cercam, temos necessidade do convívio humano. Não tenho receitas, mas um amigo disse que ao invés de ser atendido por uma máquina, no banco, entra na fila e para diante de alguém que possa olhar nos olhos e dizer: “olá, tudo bem?” O importante é ser criativo e qualificar o “hoje” para que o tempo não passe em vão, mas tenha sentido e sabor muito especial.