O valor de um alimento


Cresci ouvindo dos adultos mais próximos que “não se brinca com a comida”. Na sentença estavam contidas duas verdades: a de que o alimento tem uma finalidade em si – a subsistência, com a capacidade de dar energias para todas as atividades – e a que diz respeito a um sentimento de responsabilidade nas relações sociais – onde a sua falta faz com que uma parcela da humanidade, ainda hoje, sofra por ser mal alimentada, ou, até, morra de fome.

É o que me revolta cada vez que vejo um alimento ser desperdiçado em articulações de protesto, para manter uma tradição ou, mesmo, para realizar uma grande brincadeira de rua. Creio que, no primeiro caso, o retorno é ao inverso, já que não há como simpatizar com um movimento que desperdiça aquilo que é negado a muita gente. No segundo caso, uma “tradição” de mau gosto que, se deixasse de existir, não faria falta. E o terceiro, porque uma guerra de alimentos em plena rua demonstra selvageria e instintos primitivos que deveriam merecer tratamento psicológico.

Estou me referindo, no primeiro caso, a grupos de produtores que, recentemente, jogaram grãos fora, porque o preço estava aviltado e tinham “medo” de fazer uma distribuição sem controle de qualidade que pudesse, até, intoxicar alguém. O segundo caso, foi um “banho de leite” em vencedores de competições em feiras internacionais de produção agropecuária. O terceiro é a malfadada tradição em ruas da Espanha, onde milhares de quilos de tomate são jogados sobre as pessoas que estão na rua, dispostas a “se divertirem”.

É triste saber que alguém pode se dar ao direito de brincar com o que está faltando à mesa de alguém. Não há depoimento mais triste do que o de um pai ou de uma mãe que mostra panelas vazias, ou com restos de alimentos recolhidos que terão que nutrir, às vezes, quatro, cinco ou mais pessoas por longo período de dias, porque não têm a perspectiva de recursos que permitam mudar a situação.

Explicações que possam ser dadas para justificar qualquer uma destas “brincadeiras”, “tradições” ou “protestos” cheiram mais a deboche do que esclarecimento. A entrega deste alimento para entidades que organizam cestas básicas para a população carente talvez seja menos espetacular, não gerando imagens “divertidas” para as câmeras fotográficas ou da televisão. Mas é preciso haver respeito com aqueles que não conseguem entender que seja negado um alimento aos seus filhos, enquanto alguns se dão ao direito de “brincar com a própria comida”.