Paixão de Jesus Cristo


Pois sinto muito, padre Flávio, mas não pretendo assistir à produção de Mel Gibson. Tenho ouvido muita coisa a respeito da Paixão de Cristo e firmei a impressão de que não é o tipo de filme que me agrade. Podem dizer que é polêmico, que todos os alunos irão assistir e que é necessário que se tenham condições de formar conceito, podendo-se ser capaz de comentar e debater a respeito.

A polêmica, parece-me, está muito bem fundamentada. Mas no marketing. Ele é um filme, por tudo o que se escreveu e se mostrou a respeito, violento, como provavelmente tenha acontecido, mesmo, no seu contexto histórico. Mas que não deixa de ser um filme agressivo, numa época difícil, em que não é necessário acirrar os ânimos ainda mais. Eles já estão bastante acirrados.

Até mesmo a bola dividida que soltaram nas costas do Vaticano, para que confirmasse se é um filme anti-semita ou não, tem todos os indícios de ser discussão plantada para que se veja cada vez mais o filme. As generalizações sempre são pernósticas: não foi o povo judeu que matou Jesus, mas alguns maus judeus; não foram os alemães que ensangüentaram a Europa na segunda guerra, mas alguns seguidores de Hitler; não são as paupérrimas populações islâmicas que utilizam o terrorismo, mas alguns malucos e desequilibrados, dispostos a brincar de guerra.

A comoção que ele alcança nas salas de projeção tem tudo a ver com a necessidade que temos pelo espetáculo, em especial, quando há sofrimento e dor, em que somos espectadores privilegiados. Numa catarse que, se não resolve nossos próprios problemas, ao menos nos mostra que eles não são os maiores da humanidade. Outros vivem situações piores.

E não vale a acusação de que, quem não é capaz de assistir um “filme verídico”, é porque optou por uma fé light, ou aguada, que preferencialmente não mexe com situações mais embaraçosas, especialmente no âmbito social, pois a violência contra Jesus é muito parecida com a violência silenciosa que é deflagrada contra grande parte das populações que vivem no mundo, violentadas, com fome, sede, sem o amparo anunciado em discursos e negado na prática.

Tenham paciência, senhores, é preciso que se tenha claro que a figura histórica de Jesus Cristo tinha feito uma opção: Ele era contra a situação social existente, mas nunca pediu que seus seguidores pegassem em armas para mudá-la. Também sabia, tinha plena consciência do seu fim. Da forma violenta como aconteceu. Até porque, sem a cruz, não havia como ter sentido sua passagem pela terra, já que não aconteceria a ressurreição.

É claro que a cruz é uma grande marca. Tanto assim que muitos, ao saírem dos cinemas, dizem que nunca mais conseguirão olhar para a cruz da mesma forma. O pastor Marcos conta que, na cerimônia de Sexta-Feira Santa, sua igreja enche-se de pessoas compungidas e que ele tem que convidar, constantemente, para que venham, também, no Domingo da Ressurreição.

Creio que a discussão é válida. O padre Flávio, como capelão da Universidade Católica, convidou para um debate a respeito. Que tenha sucesso. Tenho certeza que muitos sentir-se-ão bem, fazendo isto. Eu não. Eu quero viver a Páscoa que se aproxima como um momento forte de reflexão. Que não estanca na morte. Mas que dá sentido à minha fé. Pela ressurreição.