A paixão do Cristo entre o Mel e o fel do Gibson


* Flávio Martinez de Oliveira

O que ainda dizer a respeito do filme “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson, após tantos clichês e peças de marketing, veiculados nas últimas semanas?

Um dos mais abrangentes, credenciados e competentes comentários ao filme parece-me o do padre. Melchor Sánchez de Toca, do Conselho Pontifício da Cultura, publicado pelo informativo Zenit (www.zenit.org), em 17 de março de 2004.  Segundo ele, o filme “é obra de um leigo católico que interveio com sua arte, seu talento e seu dinheiro - Gibson é, também, o produtor - ao serviço do Evangelho, e nele reside todo seu mérito”. Defende ele que “o filme é, também, um instrumento de evangelização e de catequese de primeira ordem (...) É difícil que quem o veja fique indiferente e não se proponha a algumas perguntas muito sérias: Quem é esse Jesus? Por que morreu? Que tenho eu que ver com ele?, ao que Santo Inácio comentaria: para que o conhecendo, o ame e amando-o mais, o siga”.

Não se sairá indiferente deste filme. Também o bispo auxiliar de Santiago do Chile, dom Andrés Arteaga Manieu faz notar que o filme “pode inquietar porque propõe perguntas tão graves e urgentes como a dor extrema, o sentido da vida, a traição, o sacrifício, o amor” (id., ibid.). Assim pensa o cardeal Dario Castrillón, segundo entrevista ao diário La Stampa (18-9-2003)-  “é um triunfo da arte e da fé. Será uma ferramenta para explicar a pessoa e a mensagem de Cristo. Estou seguro de que ajudará a todos os que o virem - tanto cristãos como não-cristãos - a ser melhores. Aproximará as pessoas a Deus e entre si”.

Quanto à qualidade cinematográfica, o filme é uma obra de arte, mas não cai no esteticismo. A arte cristã, tanto em suas formas literárias como plásticas, não são ilustrações estéticas, mas, a seu modo, são verdadeiros lugares teológicos (Cf. CHENU, Marie. La teologia nel XII secolo. Milano: Jaca Book, 1992. p. 9).
São Tomás diz que não se deve apresentar a verdade com argumentos irrisórios e o filme não é kitsch. Há poucas concessões à espetacularidade hollywoodiana; ao contrário, muitos momentos de grande delicadeza, como na apresentação do feminino.

O filme centra-se no sofrimento de Jesus por mim; há sangue, mas não a banalidade da violência a que nos acostumou especialmente Hollywood.  René Girard (La Repubblica, 10.03.2003), comentador de textos sagrados, filósofo, teólogo e psicanalista, acentua que é no caráter escandaloso da cruz que reside a força do Cristianismo, algo que os cristãos modernos esqueceram com vistas ao diálogo com os ateus e ilustrados. Mel Gibson, segundo Girard, “foi além porque o cinema é tempo real, e destruindo ao mesmo tempo tantos “cristos” açucarados de Hollywood (...) A Paixão por si, pura e simples, é muito mais escandalosa”.

Lucetta Scaraffia (Zenit, 15.03.2004), docente de História Contemporânea na Università Sapienza de Roma, defende que a Paixão nos recorda com cruel evidência que o cristianismo é a única religião capaz de dar um sentido ao sofrimento e de aproximar-se de modo dramático ao seu mistério, banalizado no “dolorismo” de certa piedade cristã na história dos oitocentos e ainda remanescente, ou pela cultura do espetáculo, que o seqüestra e faz travestir na própria mídia, para, em suma, deixá-lo à parte nos últimos tempos.

A Paixão, porém, não é tudo. Flashbacks inteligentemente colocados nos conduzem ao entrelaçamento entre a vida pública e a Paixão de Jesus e sublinham a profunda unidade entre ambos, de modo que se a vida de Jesus anuncia sua Paixão, ao mesmo tempo esta projeta sua luz sobre toda aquela. Uma luz do Sol invade gradualmente o sepulcro, e grita que a morte não é o final, que foi vencida pelo sacrifício redentor do Filho. O filme de Mel, pois, destila mais do que fel ou o vinagre que Jesus recebe na cruz. Ele pode inspirar a verdadeira e única esperança, quando se frustram todas as iniciativas de superar a violência nos diversos cantos do mundo.

* Padre Católico, teólogo e professor da UCPel