Palavras repetidas


Os comunicadores fizeram suas palestras, os sociólogos defenderam suas teses e os pedagogos e filósofos mostraram a beleza presente na arte de existir. No entanto, a impressão que tive é de que faltou alguma coisa ao Mutirão Latino Americano e Caribenho de Comunicação, realizado na semana passada, pela Igreja Católica, em Porto Alegre. A proposta mais sensata – ou prática – foi da necessidade de se romper o silêncio. Estranho, não? Porque ela, em si, não tem elementos “práticos”. No entanto, o que quis dizer é do quanto é necessário romper a barreira entre aqueles que lá estavam e que, de alguma forma, já ouviram o que foi dito, e aqueles que andam pelas cidades, bairros e interior, necessitando partilhar destas mensagens.

É parecido com os artigos que se escrevem falando a respeito da preservação da natureza, do patrimônio público e das áreas de convívio. Infelizmente, quase sempre, quem lê é alguém que já partilha destas idéias. Os vândalos, aqueles que depredam escolas, praças, igrejas, não lêem aquilo que escrevemos. Pode parecer um paradoxo que num encontro de comunicação seja necessário repetir palavras ou expressões como esperança, cultura da paz e solidariedade, que já estão praticamente calejadas no nosso discurso de Igreja. A realidade é que não conseguimos fazer com que elas passem do discurso para a prática do dia a dia.

São João – aquele que dormiu no ombro do Senhor na Última Ceia e não o que perdeu a cabeça pela espada – repetia a expressão: “filhinhos, amai-vos uns aos outros”. Passado dos 90 anos, entrava reunião e saia reunião e ele com o seu bordão. Até que um mais atrevido resolveu perguntar: “Pô, São João, não tens outra mensagem?”. O bom ancião olhou para todos os que estavam presente e tascou: “mas vocês já fizeram isto?” Este é o desafio: a capacidade de romper nossos círculos e atingir os que cansaram de esperar por mudanças e resolveram apenas viver, sem qualquer compromisso com a realidade. Deixam apenas que os dias passem. Para que não sejam apenas palavras repetidas é preciso, mais do que seminários, congressos e mutirões, praticar a mensagem de São João, tão simples, lúcida e atual: “filhinhos, amai-vos uns aos outros!”