Para além da nossa imaginação


Os estudiosos da comunicação começam a contrabalançar o discurso da utilização das tecnologias de ponta (ou novas tecnologias) com a necessidade de um elemento básico: a valorização da imaginação. Imaginação que é uma das características da raça humana, que a distingue e a torna peculiar.

O Seminário Internacional de Comunicação, que aconteceu nos dias 25 e 26 de agosto, na PUC, em Porto Alegre, chamou para o debate em torno das “Tecnologias do Imaginário como Extensão do Homem”. Pensadores de renome internacional – Pierre lévy, Liss Jeffrey e Lucia Santaella – juntaram-se a professores e alunos vindos de diversas partes do Brasil para refletir sobre esta marca indelével que o homem pode utilizar como instrumental, ampliando uma visão meramente tecnicista.

Num primeiro momento, fiquei muito entusiasmado com o tema. Tão entusiasmado que me uni a mais oito professores da Escola de Comunicação para apresentar painéis no evento. Levamos como contribuição pesquisas em andamento, assim como reflexões feitas a partir das práticas de sala de aula.

Mas, num determinado momento, como dizem os mais jovens, “caiu a ficha” e percebi que tinha uma contribuição a mais para esta reflexão. Ela não pode ser descartada, mas não se pode pensar que, depois de tanto alarido a respeito da salvação que vinha das inovações tecnológicas, agora se pense em inverter o processo. Vamos ficar com a velha máxima: nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno.

É claro que a imaginação não precisa ser oferecida a partir das tecnologias. A imaginação precisa fazer parte da vida, até porque ela precede a realidade. É uma forma como nós, em nossas carências, temos de lançar mão dos recursos de nosso cérebro, para visualizar o que ainda não é real.

Este é um dos motivos pelos quais temos – jovens, adultos e idosos – dificuldades, hoje, pois não estimulamos a que se valorize a imaginação. Desta forma, impedimos, até, tornar previsível algo que gostaríamos de produzir, ou de viver.

Nesta “revisão”, valorizam-se os “poetas” e os “loucos” (falo com conhecimento de causa porque creio que faço parte dos dois times), como aqueles capazes de, exatamente, exacerbar a imaginação. Ora, por favor, vamos mais devagar. É claro que estas duas categorias têm muito a dar, no sentido de que se humanize as relações e se lhes empreste aquela sensibilidade que foi descarnada do produto técnico.

Então, o que fazer? Não tenho uma resposta pronta. Sequer acredito que isto seja necessário. Parece que, novamente, colocamo-nos diante de uma encruzilhada. Encruzilhada que não é que não chega a ser algo de novo na história da humanidade, mas que, agora, quer recompor valores (perdidos?) deixados de lado por alguns segmentos que preferiram apostar em que tinham todas as respostas prontas a partir de cálculos precisos e, redundantemente, exatos.

Eu prefiro ficar com meus poetas, meus loucos, meus cronistas, meus articulistas e todos aqueles que entendem que somos apenas seres humanos, limitados naquilo que podemos fazer com nossa condição física, mas ilimitados no que podemos alcançar com nossa imaginação.

Esta soma tem um potencial explosivo: o elemento técnico passa a não existir por si, somente, mas atende a respostas que, como sociedade, esperamos que nos dê. Perigosamente próximos a se verem inseridos efetivamente na realidade, ancorados em fatos que nos desafiam a utilizar positivamente do que a técnica possa oferecer para alargar nossos horizontes. Para bem além da nossa imaginação.