Para ser visto de smoking


Não há nenhuma dúvida que a música é um alimento para o espírito. Assim como a boa leitura, bons filmes e bons espetáculos. As artes, enfim, são capazes de refinar a sensibilidade e nos tornam mais capazes de sentir e compreender o mundo, já que predispondo para momentos de introspecção e meditação.

Nos bons tempos de seminário, padre Olavo Gasperin propiciava, aos sábados à tardinha, sessões que iam da música popular brasileira à clássica, com uma sensibilidade na seleção que, mesmo para adolescentes, acabou se tornando um dos momentos mais esperados da semana. Fomos aprendendo a valorizar tanto o que era moda, na época, quanto as peças que eram recuperadas do cancioneiro nacional e internacional.

Lembrei-me destes saudosos tempos quando estive, recentemente, em duas audições na Catedral do Redentor – a nossa bela Igreja Cabeluda, numa parceria da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e o Conservatório de Música da Universidade Federal.

Sei que o professor Francisco Vidal seria mais competente para analisar qualquer manifestação artística. Mas atrevo-me a dizer que, num excelente horário – 18 horas do último domingo de cada mês, fui brindado, numa apresentação, com solo de violão; e na outra com uma performance de piano e voz. Além da alta qualificação dos músicos, a acústica da Catedral era perfeita para, sob o olhar atento de um Cristo Rei crucificado, pairando por sobre a música, termos a bênção de poder alimentar o espírito com uma refinada manifestação artística, que não encontrava há muito tempo.

Na ocasião lembrei que, alguns dias atrás, percorrendo a Galeria do Rosário, em Porto Alegre, em meio a muitos sons (não os chamo de barulho, porque sempre tem quem goste), notei um que era diferente: uma loja especializada em clássicos orquestrados. Era a “boa música” de diversas emissoras de rádio que transmitem esse estilo – contradizendo os ibopes – com boa aceitação, inclusive pelo público jovem.

Nas duas audições na Catedral do Redentor, por ser um domingo à tarde, entrei na igreja vestindo um abrigo esportivo. O pastor que fazia a recepção brincou que eu estava com muito calor. Respondi que ele tinha razão, já que a audição merecia ser assistida com traje a rigor. E é verdade: no último domingo do mês, se estiver na cidade, invista na sua sensibilidade, vá a um espetáculo tão maravilhosamente envolvente, de um refinamento absoluto que, com certeza, mereceria ser visto de smoking.