Páscoa do silenciar


Há muito tempo que vejo neste período de Páscoa um momento privilegiado de reflexão. Pode parecer o óbvio, pois esta máxima é dita e pregada ao longo da Quaresma, por todas as igrejas cristãs.

Nem sempre é o que acontece. Os tempos de reflexão são marcados pela comercialização: trocamos presentes no Natal; deliciamo-nos com doces e chocolates, na Páscoa; e ainda temos o dia das Mães, dos Pais, dos Namorados...

O sentido do silenciar está na preparação de Jesus para a própria morte. Como ser humano, não deve ter sido nada fácil. Mas era necessário, pois, não sendo assim, tornava-se impossível a ressurreição, perdendo a razão maior da fé cristã.

A que “morte” nos referimos quando se convida à meditação na Páscoa? É um tempo de olhar para trás. Um tempo de colocar na balança todo um período de vida.

Brinco com uma amiga que ela só não se organiza porque é incapaz de olhar para trás. É uma verdade: das coisas mais simples, como um arranjo de roupa ou de móveis, em casa, até as mais complexas, como tomar decisões sobre o futuro, requer um olhar que avalie o já feito.

Mas, para que se possa tomar este passo é preciso silenciar. Há algo mais belo do que ver uma criança dormindo aconchegada em seu berço, ou pendurada nos braços do pai ou da mãe? E, no entanto, ela está se desenvolvendo.

Neste momento, toma fôlego para que possa crescer. O mesmo acontece com a natureza que, no silêncio da noite, troca energias e emerge, com a luz do sol, para um novo dia, irradiando vontade de viver.

Para o homem, é um pouco mais complexo. Afinal, existe muita coisa que nos distingue do animal e do vegetal. Ou não? Não tem sentido que, apenas, sejamos capazes de nascer, crescer, atingir o ápice e, depois, entrar em declínio.

Temos uma marca. A marca da grandeza de sermos filhos de Deus. Com um sinal ungido na testa, onde, por uma cruz, ficou traçado que, entre as tristezas e as alegrias desta vida, existem cruzes que, sem a ressurreição, perdem o sentido.

Não desperdice este tempo. Pare, do jeito que for possível. Talvez não tenha tempo de ficar por alguns momentos em alguma igreja. Não faz mal. O silêncio mais importante é o silêncio do coração. Aquele doce afago que sossega emoções, organiza nossos rumos e nos faz sorrir com a tranqüilidade de quem está em paz. A paz que o Filho de Deus nos trouxe por sua vida, morte e ressurreição. Feliz Páscoa!