O peixe e o albergue


Recentemente, o Tribunal Eleitoral do Estado cassou o mandato de diversos deputados eleitos recentemente por terem cometido um crime: transformado albergues, em que recebiam pessoas que precisavam acompanhar pacientes na capital, em comitês eleitorais.

Em seguida, os críticos de plantão passaram a achar uma barbaridade que estes políticos utilizem-se dos males alheios para pedir votos. E teve até alguns que, declaradamente, reconheceram que os donos de albergues saiam na frente nas campanhas eleitorais, porque, atendendo alguém que necessitasse ficar em Porto Alegre, recebiam um voto considerado fiel.

Pois quem não cometeu nenhum pecado, que atire a primeira pedra! Até creio que deve ser reprovada a conduta daquele que busca qualquer meio para convencer o eleitor, mas e também não se deveriam condenar aqueles políticos que buscaram votos e não cumpriram promessas, em especial, neste caso, de dar a assistência médica ao paciente e as mínimas condições aos seus familiares?

Infelizmente, nem todas as pessoas têm condições, quando alguém precisa de um tratamento especializado e estando internado, de fazer reservas em hotéis ou similares. E como a população mais pobre sofre com isto: caso de pai doente, com a mãe tendo de acompanhá-lo e sem ter alguém com quem deixar os filhos, por exemplo. Ou ainda sendo arrimo de família e deixando de receber o seu sustento, precisando um outro partir para a busca do pão nosso de cada dia!

Estes deputados somente ocuparam um lugar no qual o Estado deveria agir. E não age, está omisso deixando margens para que possa ser utilizado eleitoralmente.

Quando ouço os discursos, fico pensando o quando as palavras possuem uma tênue fronteira. É o caso de assistência e assistencialismo. Para nossos políticos profissionais, assistência é o que eles fazem – um bem superior, capaz de promover o que adoram dizer de boca cheia: a cidadania! – e o que os outros fazem é assistencialismo – migalhas jogadas, que impedem a pessoa de aprender a pescar.

Na prática, seguidamente, a teoria é outra: tem horas em que o necessário é, mesmo, dar o peixe, porque, do contrário, o vivente, possivelmente, nem sequer conseguirá chegar ao rio para pescar!