Pequenos grandes milagres


Quem lê estes artigos há algum tempo sabe que sou privilegiado por conviver com um portador da Síndrome de Down, o Edson Epitácio – popular Edinho. Agora, me considero duplamente privilegiado, já que também convivo com a Virgínia, também portadora da Síndrome de Down. Pois num destes finais de domingo, em que já havia constatado um pequeno milagre ao acompanhar a Missa de 7º dia de um amigo - em que a esposa me deu uma lição de tranqüilidade e fé, por ter a postura e um olhar onde transpareciam todas as certezas que outros teimavam em negar - acabei passando na casa de uma amiga para deixar milagrosos limões para o combate das gripes.

Primeira surpresa: fui barrado ao entrar, deveria esperar por um sinal. E veio com um convite que me fez perceber que existem pequenos grandes milagres que só não são vistos por aqueles que teimam em negar a maravilhosa obra do Pai: iniciou a tocar um tango – sim, um tango – e, entrando na sala, a dupla Edinho e Virgínia dançavam com uma precisão de passos e afinidade com a música que, confesso, fiquei com inveja, própria de um péssimo dançarino, como sou, capaz de alterar qualquer ritmo ou, até, de pisar os pés de uma parceira!

Mas eles conseguiam, depois de duas aulas de treinamento, deslizar suavemente pela sala, marcando o compasso das músicas de Gardel, indo e vindo com uma leveza de causar espanto até em quem está acostumado a ver belas apresentações de danças.

Mas ainda não estavam contentes. Depois de três números, apresentaram mais uma de suas conquistas e, confesso, deixaram-me com um nó na garganta: ao papel, ou na tela do computador, conseguem reproduzir letras, juntá-las e conhecer os seus respectivos sons: estão sendo alfabetizados!

Pensei naqueles que, quando vêem um portador da Síndrome de Down, usam expressões como: “coitadinho”, “olha o doentinho”, “que lástima, a mãe merecia coisa melhor”. Pena, porque, de fato, não sabem o quanto eles têm a contribuir, inclusive, socialmente. Se até algum tempo atrás a sua expectativa de vida era curta e a sua inserção social difícil, hoje, ao contrário, a evolução dos tratamentos e das técnicas faz deles cidadãos em plenas condições, necessitando, apenas, do reconhecimento da diversidade, até mesmo no tempo de aprendizado.

Fazem isto com o senso de quem é capaz de entrar na cadência da música e rascunhar palavras sem mendigar espaços, mas mostrando que num olhar de fé há vida pronta para acontecer - como em qualquer caso - num existir solidário.