Perdi uma lição


Uma das máximas da teoria de mercado, pregada pelo Capitalismo, diz que a ele – e somente a ele - cabe resolver seus problemas. Portanto, é indevida a intervenção do estado, que pode até resolver alguns em curto prazo, mas causaria maiores a médio e longo prazo. As economias do Mundo – em maior ou menor grau – dobraram-se a esta cartilha e o presidente Lula, antes de assumir seu primeiro mandato, elaborou um documento dizendo que rezava conforme os seus mandamentos.

Pois foi com surpresa que, na semana passada, ouvi os mesmos economistas - pregadores da liberdade do capital gestar seus destinos - aplaudir a intervenção do Banco Central, especialmente dos Estados Unidos e da Europa, na economia. Fiquei pasmo. Mas continuei acreditando que devo ter entendido algo errado.

Durante muitos anos, esta conversa sempre girou em torno dos mesmos temas: a sociedade ser filantrópica, até pode, o que não pode é institucionalizar políticas sociais de governo para a área, porque então passa a ser uma intervenção na economia, conseqüentemente, uma ação indevida.

Passados alguns anos, quando o mercado dá-se conta de que o precipício está se abrindo a seus pés, “corajosamente” resolve apelar para que os governos sejam sensíveis e salvem a sua lavoura, já que a do outro lado - das políticas sociais de governo - andava e anda a míngua.

E, por favor, não diga que você não entende nem quer entender de economia. Mesmo o governo afirmando que estas trovoadas somente vão causar tormentas acima do Equador e do outro lado do Atlântico, isto é meia verdade. Oscilações do dólar, por exemplo, influenciam desde o preço do pãozinho nosso de cada dia até a passagem de ônibus (com um “ajuste” no preço de combustíveis dos quais, já aprendemos, somos auto-suficientes, mas que, estranhamente, acabam nos afetando).

Tenho batido na tecla de que o Brasil é rico, o brasileiro é que é pobre. Embora alguns índices já demonstrem melhorias, não é o suficiente para não termos mais crianças morrendo de fome, nem pessoas vivendo em situação de miséria absoluta, perdendo toda a perspectiva de vida ou tomando outras que mutilam ainda mais a sua existência.

Viver em função do mercado é um erro, pois perdemos o foco na pessoa. Em qualquer sistema, priorize-se o cidadão, busque-se resolver os seus problemas, sem promessas de paraísos impossíveis. Não há sentido, depois, ter que desmentir a própria teoria. Ou será que fui eu que perdi a lição?