Reportagem e conto popular: um diálogo possível

 


Introdução:

A transmissão oral de informações, crenças e costumes é algo que, muitas vezes, se perde na história. De tempos em tempos, encontramos registros de elementos que, antes de serem gravados no papel, no papiro ou na pedra, haviam sido repassados pela tradição, na maior parte das vezes, em família ou no pequeno grupo social de convivência.

Em especial, as mudanças técnicas ocorridas na região sul do Estado, na virada dos anos 50 para os anos 60, do século XX, com o surgimento da energia elétrica e da televisão, fizeram com que fossem desaparecendo os tradicionais contadores de histórias.

Este personagem podia ser um vizinho ou um familiar, em especial os pais e avós, que transmitiam histórias das quais nem eles mesmos sabiam a origem. E, muitas vezes, tinham origem com os próprios contadores de histórias, que utilizavam o imaginário como grande arcabouço para o seu surgimento.

Recuperar esta capacidade de argumentar, ilustrar, centralizar o foco num personagem da história, pode ser um elemento capaz de enriquecer o texto jornalístico que se tornou iminentemente técnico.

Um dos mais destacados gêneros da literatura é, sem sombra de dúvidas, o conto que pode ser definido como uma história curta que tem como características principais o fato de envolver ação e personagem.

Não raras vezes o jornalista vai buscar no conto o modelo condutor de seus textos. Houve mesmo uma revista (Realidade, já desaparecida) que usou e abusou desse recurso. A reportagem-conto começa por particularizar a ação: escolhe um personagem para ilustrar o tema que pretende desenvolver.

A típica reportagem-conto tem uma estrutura mais orgânica. Geral­mente particulariza a ação em torno de um único personagem, que atua durante toda a narrativa. Os dados documentais entram dissimulada­mente na história e o texto aproxima-se tanto do conto que incorpora, até, fluxos de consciência dos personagens.

A partir daí, é possível vislumbrar a riqueza que pode advir para a construção do texto da reportagem se ele conseguir incorporar alguns dos elementos indicados neste e em outros gêneros da literatura. Em especial, se for capaz de recuperar um elemento forte do conto que são os próprios contadores de histórias.

 

Objetivos:

Este estudo busca demonstrar que a reportagem pode ser o grande espaço, hoje, do “contador de histórias”, aquele que torna possível a socialização da informação, pela interação entre dados objetivos, contexto e personagens.

Específicos:

1.                   A Universidade prestaria um inestimável serviço à história resgatando e registrando depoimentos de um tipo de pessoas (os contadores de histórias) que está desaparecendo.

2.                   Este conhecimento poderá ser colocado à disposição dos estudantes de Jornalismo, que teriam muito a ganhar no envolvimento humano de um gênero (o conto popular), que, possivelmente mesmo que intuitivamente, guarda semelhança com as técnicas que envolvem formas narrativas, de representação e de tensão (expansão ou redução).

 

Justificativa:

Bakhtin diz que o locutor postula uma compreensão responsiva ativa: o que ele espera não é uma compreensão passiva que, por assim dizer, apenas duplicaria seu pensamento no espírito do outro, espera uma resposta, uma concordância, uma adesão, uma objeção, uma execução, etc. A variedade dos gêneros do discurso pressupõe a variedade dos escopos intencionais daquele que fala ou escreve.

Esta também é a idéia do conto popular. No entanto, no caso da produção de reportagem em jornalismo, a pressa em colocar a informação à disposição do leitor, tudo indica, acaba fazendo com que os novos jornalistas sejam, literalmente, “treinados” na utilização de recursos eletrônicos e nos manuais de procedimento para o texto. O que acena com a possibilidade de que esteja sendo esquecida a necessidade que o imaginário tem de que se construa adequadamente o personagem da notícia e sua ação/envolvimento na trama e no drama.

A reportagem é, no Jornalismo, o formato de texto que tem a maior possibilidade de estar em diálogo com o conto popular, pois, em ambos os casos, é necessário que se narre o desenrolar dos fatos levando em consideração o olhar de um personagem e o interesse de um interlocutor.

Este estudo pode, a partir de um referencial bibliográfico, buscar informações e depoimentos de contadores de histórias ainda existentes, para um conhecimento sistematizado da forma como é produzido e transmitido o conto popular. Paralelamente, junto aos alunos de redação em jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Católica de Pelotas, traçar um perfil de como o acadêmico é iniciado no texto jornalístico, até chegar à produção da reportagem. Até porque, como diz a professora Marines Ulbriki:

 A sala de aula ainda é o grande laboratório do aprendizado. E possivelmente, também ali, encontram-se as respostas para nossas perguntas. Nesses espaços de sala de aula podem emergir propostas que desafiem e estimulem outros profissionais ligados ao ensino da leitura a estabelecerem coerência entre a fundamentação teórica que possuem e sua ação na prática. (ULBRIKI: 2003, 102)

 

Importância:

Pesquisar formas de fazer com que a Academia e o próprio aluno possam se aproximar mais de uma forma tradicional na humanidade – o conto popular – que tem elementos capazes de superar textos, muitas vezes, toscos e mal formatados, que poderiam ter um maior sabor para os leitores, se trabalhassem com o imaginário e fossem contextualizados.

     

Fundamentação Teórica:

O autor pretende utilizar como referência os estudos realizados por Mikhail Bakhtin na área dos gêneros discursivos, em especial o que se refere à esfera da atividade e à esfera humana, cotejando com a esfera jornalística, onde está a reportagem. Por outro lado, refletindo sobre a relação com a esfera literária, onde se encontra o conto, em especial, o conto popular. Bakhtin, em Estética da Criação Verbal, diz que:

As formas estáveis do gênero do enunciado. O querer-dizer do locutor se realiza acima de tudo na escolha de um gênero de discurso. Essa escolha é determinada em função da especificidade de uma dada esfera da comunicação verbal, das necessidades de uma temática (do objeto do sentido), do conjunto constituído dos parceiros, etc. (BAKHTIN: 1997, 35)

Da literatura, o autor leva em consideração as suas principais características, onde se insere a força, a clareza, a condensação, a tensão e a novidade, que, em alguns casos, resultaram na reportagem-crônica e o livro-reportagem. E, ainda, a partir da década de 50, o “Novo Jornalismo”, “Jornalismo Literário”, ou ainda “Romance de Não-Ficção”, que podem parecer coisas distintas, mas consistem numa modalidade de narrativa que funde elementos de ficção com a objetividade jornalística.

A verdade é que literatura e jornalismo nunca deixaram de se relacionar, mesmo que indiretamente. O Novo Jornalismo extrapola os limites do jornal impresso. É quando surge o livro-reportagem, que se tornará o veículo mais comum para esse novo gênero. Algumas revistas serviram, inclusive, de laboratório para esse novo tipo de experiência, como a The New Yorker, a Esquire, e a Rolling Stone. No Brasil, a revista Realidade e o Jornal da Tarde também publicaram relatos dessa espécie.

O intuito é analisar discursivamente, a partir da Teoria Dialógica do Discurso, características da constituição da reportagem em jornal e revista e do conto popular em Pelotas e na região.

O estilo jornalístico em revista

Na redação do texto, a arte influi como suporte do estilo; a técnica, como base para "vulgarizar a compreensão”. O jornalismo busca uma expressão de consenso, comum e ao mesmo tempo personalizada. Uma espécie de linguagem ideal, para ser assimilada por todos os níveis culturais da sociedade.

Jornalismo não é só um estilo próprio, em termos de originalidade, mas sim por ter a linguagem adequada para a prática diária de noticiar. Como diz a professora Marines Ulbriki, na sua dissertação de mestrado, A Construção do Sentido em Leitura – O Papel do Conhecimento Prévio: “Afinal, é preciso ensinar que ler é criar uma atitude de expectativa prévia com relação ao conteúdo referencial, isto é, mostrar ao aluno que quanto mais ele prevê o conteúdo, maior será a sua compreensão”.

Em Lingüística Textual se diz que é necessário, na distribuição da informação no texto, levar em consideração que

O grau de previsibilidade/redundância com que a informação nele contida é veiculada... Pois um texto que contenha apenas informação conhecida caminha em círculos, é inóquo, pois lhe falta a progressão necessária à construção do mundo textual...Textos que contenham unicamente informação nova, visto que seriam improcessáveis, devido à falta de âncoras necessárias para o processamento... Um texto será tanto menos informativo quanto mais previsível (redundante) for a informação que traz. (KOCK, 2004, 41)

 O texto de uma revista semanal é mais investigativo e interpretativo, menos objetivo e mais criativo. A revista preenche lacunas. Através de documentação, antecipa-se à expectativa do leitor, que sente e vive a "explosão" dos fatos, mas suas razões e conseqüências implícitas ou obscuras lhe escapam. Vai responder aos porquês do fato. O texto precisa ter ecos e ressonâncias. Por isso, a construção das frases é mais complexa. Isto pode fazer com que cada frase se torne um território minado, sujeito até mesmo a "duplas interpretações", sem que se diga que “algo está escrito nas entrelinhas”.

Na narrativa literária, o conto costuma ser a forma mais curta; em jornalismo, a reportagem é a mais longa. Mas as duas formas muito se assemelham: pode-se dizer que a reportagem é o conto jornalístico - um modo especial de propiciar a personalização da informação ou aquilo que também se indica como “interesse humano”.

Na literatura, o conto apresenta uma centelha, um momento, uma fatia temporal da existência de um personagem. No jornalismo - tanto no chamado livro-reportagem, quanto no jornal diário - a reportagem amplia a cobertura de um fato, assunto ou personalidade, revestindo-os de intensidade, sem a brevidade da “forma-notícia”.

 

Procedimentos metodológicos:

O pesquisador trabalhará com dois instrumentos de pesquisa:

1. Para a coleta de dados com pessoas que são contadores de histórias, serão tomados depoimentos gravados, numa pesquisa qualitativa, que permitirá a observação da forma como é feito.

2. A coleta de dados com os alunos de Redação em Jornalismo da Escola de Comunicação se dará mediante a análise de textos produzidos nos três semestres em que fazem este aprendizado, assim como nas respostas dadas a um instrumento que será aplicado a cada semestre. No primeiro caso, uma pesquisa qualitativa, que permite a observação individual do desenvolvimento do texto de cada aluno. E no segundo caso, uma pesquisa quantitativa, buscando elementos na estatística descritiva.

Para a análise e interpretação dos dados será levado em conta o levantamento de referências das áreas da Literatura e do Jornalismo.

A metodologia adotada na pesquisa é de caráter interpretativo. Os dados recolhidos nas pesquisas realizadas com alunos e contadores de história serão analisados qualitativamente, já que baseados em depoimentos e análise dos textos produzidos.

A quantificação dos dados, utilizada num segundo momento, mediante a aplicação de questionários semi-abertos, objetiva esclarecer o nível de consciência que vai se estabelecendo na produção de textos pelos alunos de redação.

Inicialmente, paralelo ao embasamento teórico efetuado durante toda a pesquisa, através de leitura e discussão dos textos citados na bibliografia, analisaremos a transmissão oral do conto popular e a produção de reportagem. Em seguida, faremos o paralelo entre as estratégias interativas utilizadas no conto popular e na produção de textos, em especial,  as diferenças e semelhanças. Finalmente, desenvolveremos uma reflexão sobre o objeto de estudo e sua contribuição para a sociedade.

 

Referências Bibliográficas:

AGUIAR, Flávio. A Palavra no Purgatório. São Paulo: Jinkings Editores, 1997.

BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética. São Paulo: Unesp/Hucitec. 1988.

____________ Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

____________ Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec. 1979.

____________ Os gêneros do discurso. Estética da criação verbal. São Paulo: Perspectiva, 2001.

KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. Introdução à Lingüística Textual. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas. Campinas: Editora Unicamp, 1995.

MANUAL DE REDAÇÃO DA FOLHA DE SÃO PAULO. São Paulo, Publifolha, 2001.

MENEZES, Fagundes de. Jornalismo e Literatura. Rio: Razão Cultural, 1997.

OLINTO, Antônio. Jornalismo e Literatura. Rio: Edições de Ouro, 1968.

SODRÉ, Muniz e FERRARI, Maria Helena. Técnica de Reportagem. Notas sobre a Narrativa Jornalística. São Paulo: Summus, 1986.

ULBRIKI, Marines. A Construção do Sentido em Leitura – O Papel do Conhecimento Prévio. Pelotas: Dissertação para o Mestrado de Letras da UCPel. 2003.