Olhares diferentes


(Berwyn – Chicago Area – Nov/97)

Era domingo. Chovia e ventava. Jorge e meninos foram à missa, à tarde, mas eu resolvi não sair de casa. De repente uma lufada de vento mais forte faz a casa estremecer junto com um estrondo acompanhado de ruidos de tijolos caindo. Pronto, pensei, a casa está caindo! Dei uns pulinhos para ver se o chão continuava lá... e estava. Olhei para cima e o teto estava lá intacto! Olhei pelas janelas, mas estava muito escuro e não pude ver nada. Em minutos ouvi sirenes de bombeiros. Logo depois o forte barulho de serras cortando algo. Pensei: A coisa foi perto... muito perto! Passados uns minutos alguém bate a campainha e berra: Polícia!!! O que aconteceu agora?! Abro a porta e um policial todo molhado com uma lanterna na mão e a cabeça coberta de folhas pergunta:

-Quem é o dono desta casa? Respondo:

-Sou inquilina, e o que está acontecendo?

-A Senhora não viu e ouviu nada? Caiu uma árvore do seu jardim e interrompeu a rua , derrubou o muro de trás da casa junto com todos os fios de telefone do quarteirão. A prefeitura já desobstruiu a rua. Agora o proprietário da casa precisa providenciar para tirar os entulhos que ficaram no jardim.

- Está certo. Disse eu. Amanhã, pela manhã, falo com o proprietário e com a companhia telefônica.

Fiquei meio apalermada com o incidente porque tudo isso aconteceu em menos de 15 minutos.

No dia seguinte os entulhos foram retirados e a companhia telefônica colocou fios novos para todas as casas atingidas.

Na noite seguinte, novamente batem a campainha acompanhada do berro: Polícia!!!

Dessa vez o Cesar foi atender, e novamente:

- Quem é o dono dessa casa? O Cesar responde:

- Somos inquilinos, o que está acontecendo?

- Olha, diz o policial, o caso já foi resolvido. Já prendemos os três garotos responsáveis e a Prefeitura já consertou tudo!

O Cesar pergunta meio assustado:

- Quer dizer que três meninos derrubaram a árvore?

- Que árvore?! Não! Estou falando da sua garagem que foi pixada! Três meninos pixaram as garagens da rua toda. Mas a prefeitura já limpou tudo e pintou as portas das garagens. Nós encontramos os garotos todos sujos de tintas e tomamos as providências. Só estou aqui para informar que tudo está em ordem e para pedir desculpas pelo ocorrido.

Tudo isso aconteceu durante a tarde. Eu estava em casa e não vi nada. Apenas, pela janela da cozinha, vi um carro da prefeitura parado nos fundos da casa. Mas não dei importância porque aqui isso é comum.

Passaram-se mais quinze minutos e novamente a campainha: Polícia!!!

Novamente o Cesar foi atender. Era outro policial falando do ocorrido e pedindo uma assinatura nossa para formalizar a queixa de modo que a Prefeitura pudesse cobrar as despesas das famílias dos garotos.

Na manhã seguinte fui ver como tinham ficado as garagens. Todas as portas tinham sido pintadas com suas cores originais: marrom, amarelo, branco, etc...

Como diz um ditado daqui: Na vida só há duas certezas: a morte e os impostos! Pagar impostos é quase uma religião. São eles que garantem o conforto dos americanos.

O fato de comentar sobre estas coisas não quer dizer que não tenhamos presenciado, também, coisas mal sucedidas. A sociedade aqui é infinitamente melhor organizada mas é composta, também, por gente cheia de limitações.

A grande diferença entre as coisas erradas aqui é que eles fixam muito pouco a atenção com as coisas que não dão certo. Eles aprendem com o erro e em seguida eles “partem para outra” e esquecem o que aconteceu. O fracasso é, para eles, uma possibilidade muito remota que não deve ser levada em conta. Esse sentimento sempre positivo frente ao trabalho e à vida faz com que tudo caminhe melhor. Em tudo o que acontece sempre há algo de positivo e sempre, por menor que seja, esse ponto é valorizado e exaltado. Tenho me sentido numa escola de reformulação de conceitos. Até o meu humor tem sido posto à prova, porque brincadeiras com coisas negativas, aqui, não são compreendidas. Talvez dado um exemplo com um desses nossos ditados populares. Aí no Brasil dizemos: “Laranja madura na beira da estrada está bichada ou tem marimbondo no pé!” Aqui, talvez esse ditado fosse formulado assim: “Laranja madura na beira da estrada é sinal de que Deus provê!”