Por uma bengala


Meus alunos ouvem, seguidamente, que em muitas situações na vida temos a necessidade de utilizar “bengalas”. No caso deles, estudantes de Jornalismo, é necessário um “kit básico” composto de um dicionário - nossa língua tem nuances muito peculiares; uma gramática - para aquelas dúvidas mais elementares; e um manual de redação - para as questões específicas da área.

No entanto, a lição da “bengala” está presente em diversos momentos. Cada vez mais, é comum vermos pessoas idosas que cumprem o enigma colocado pela esfinge: “qual é o ser que, pela manhã, anda de quatro; ao meio-dia, sobre dois pés; e ao entardecer com três pernas?” Claro que é o homem. Pela manhã (início da vida), engatinha; ao meio dia (na maturidade), ereto; ao entardecer (terceira idade), com as próprias pernas, mais uma bengala. Aqui em casa, colocamos à disposição da minha mãe uma bengala de madeira clara, com desenhos gravados por pirogravura, com o pensamento de que, a partir daquele momento, seria uma companheira pelo resto da vida.

Nos dois casos, quem pensa assim se engana. As pessoas da terceira idade podem – como foi o caso da minha mãe – alcançar uma recuperação em que, determinado dia, até esqueçam que têm uma bengala e que podem utilizá-la. Para o aluno não é uma questão de esquecimento, mas uma necessidade: ele pode chegar à maturidade do texto em que as “bengalas” vão ser utilizadas em casos esporádicos, porque a capacidade de caminhar/escrever com “as próprias pernas” já se dá de forma natural.

Mas fui me dando conta de que o mesmo acontece em outras áreas. São muitas as nossas carências, onde uma “bengala” é fundamental: precisamos de um amigo que não somente ouça todos aqueles problemas repetidos dezenas de vezes, mas que ainda, se for o caso, tenha paciência de ouvir novamente.

Nas relações de fé, somos, muitas vezes, infantis, demonstrando que não passamos do “bê-a-bá”, ao querermos milagres que nos atendam, numa chantagem com Deus: “rezei cem “Ave-Marias” porque não salvastes meu filho?”

Na Páscoa, tempo de reflexão, é bom pensarmos a respeito das “bengalas” que utilizamos. Não tenha vergonha das que usa: que bom se elas auxiliarem a andar e, quando isto acontecer, que cada um possa construir o próprio caminho.