Do mundo e da província


 

No início desta semana, dois meios de comunicação mostraram qual é, realmente, a sua vocação: a televisão, que transmitiu praticamente ao vivo os ataques dos Estados Unidos (a Inglaterra é um mero apêndice) ao Afeganistão, propiciando imagens que precisavam ser interpretadas e explicadas. Para isto, em seguida, um batalhão de âncoras, repórteres e analistas saíram a campo para decifrar o acontecido. E o rádio, que na trágica madrugada de segunda, quando um vendaval abateu-se sobre a região sul, foi capaz de mobilizar não só a informação, como também o atendimento às vítimas.

A televisão jogou para o mundo as imagens, seguidas da devida contextualização, recordando o que havia acontecido em 11 de setembro, na derrubada das torres gêmeas em Nova Iorque. Foi capaz de dar aos especialistas material para ser trabalhado ao redor do mundo. Como praticamente todos já estavam a postos – era uma guerra anunciada – iniciaram a acética descrição, incluindo mais um ou outro elemento que daria um condimento mais exótico para os telespectadores. Muito próximo do que estão fazendo nossos narradores de futebol que, sentados a uma mesa, em ambiente com ar condicionado, acompanhados de um comentarista, fazem a sua parte, enquanto sofre apenas um (e para que deveriam sofrer todos?) num campo, com melhor definição de imagem e, prazer dos prazeres, a possibilidade de rever o lance, utilizando o tira teima.

No caso do rádio, o temporal que iniciou em torno de 4h30min teve uma cobertura perfeita, a partir das 5 horas, por uma emissora que transmite a partir de Rio Grande, e que tinha um locutor atilado, que começou a pedir para as pessoas telefonarem e contarem o que estava ou havia acontecido. Embora entre os dois municípios só tenha encontrado no ar três emissoras AM – a falta de energia elétrica nos estúdios e em transmissores tirara as demais do ar – esta foi capaz de mobilizar, a partir das 7 horas, repórteres que passaram a deslocar-se até os lugares mais prejudicados em Pelotas e Rio Grande narrando o acontecido, buscando repercussão junto das autoridades, enquanto os apresentadores, nas duas cidades, recebiam os telefonemas de ouvintes/narradores que descreviam as cenas de destruição, com queda de árvores, de telhados, de postes, out-doors, avanço das águas e situações que nos levam aos filmes de catástrofe.

Foi numa delas que senti muito perto o que significa um "repórter-protagonista", já que a emissora recebeu um telefonema de que em tal rua, diante de tal número, um transformador estava próximo de cair. O próprio repórter reconheceu que ali era a sua casa e passou a pedir, encarecidamente, que a CEEE fosse ao local.

Mas e qual é a vocação destes dois veículos de comunicação? Não quero entrar nesta dividida, que já se arrasta desde o surgimento da telinha. No entanto, a televisão tem estado mais para nos contar o que acontece no mundo, colocando-nos situações como a guerra que, hoje, tem a preparação de um mega-show. Enquanto isto, o rádio, desprezado por alguns como uma mídia ultrapassada, mostra que está bem vivo, capaz de mobilização comunitária instantânea, seja na informação, como na prestação de serviços. E no que uma coisa diferencia-se da outra? Simples. Enquanto muitos, apenas queriam ter a notícia, para outros, inclusive as autoridades, as descrições dos avanços da água e, consequentemente, de lugares interrompidos, passou a ser indicador de comportamento e de providências a serem tomadas.

Portanto, como sugestão, não descartem seus radinhos de pilha. Num dia de chuva, quando começar a tocar o vento com mais força, e as lâmpadas derem o primeiro sinal de que vão deixar de funcionar, feche todas as portas e janelas, acomode-se na cama ou no sofá e procure por um bom espaço noticioso. Sempre encontra-se um, mesmo que não seja em sua própria cidade. Paciência. Em pleno temporal na região sul, uma emissora da capital tinha um analista do tempo dizendo que o dia manter-se-ia úmido. Nada mais. Somente não deram este aviso para os ventos que sopraram sobre nossa região. Coisas de São Pedro.