Quando se mata um sonho


Depois do Golpe de 64, grandes segmentos da população foram sendo convencidos de que política era algo de caráter ao menos duvidoso e que dela deveria se manter alguma distância, em especial os jovens e os intelectuais.

Nos anos 80, o surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT) trouxe novos ares para a política, mobilizando uma faixa etária que tinha se afastado de praticamente toda a atividade partidária.

Em primeiro lugar, reconheço que o PT tem um ideário interessante. Em segundo, que o problema não estava nas propostas do partido, mas em alguns petistas: foram se convencendo de que eram os senhores da verdade e da ética. E não eram.

No momento em que assumiram o poder, foram vítimas de um fenômeno característico da fisiologia: incharam. Como diria um ex-ministro: foram iludidos – e se deixaram iludir - por más companhias!

O que foi construído ao longo de 25 anos? Um sonho. Um sonho de poder, especialmente de jovens e intelectual, que almejavam socializar com a classe trabalhadora os ganhos de um país rico economicamente e pobre no trato com a sua gente.

Quando ouço amigos petistas de carteirinha dizerem que estão decepcionados e com vontade de abandonar o barco, fico com pena. Como acreditar em convicção ideológica que, na primeira tormenta, coloca tudo por terra?

Se tiverem coragem, a história está dando uma oportunidade única para que purifiquem o seu partido. Purificado, volte a seduzir por suas idéias, num processo que vai levar um bom tempo, mas necessário. Como a Fênix que se levanta das cinzas, com quadros bem menores, mas com a lição de que o poder é sedutor. E perigoso. Neste jogo, é preciso ter clareza de cada movimento.

Não podem ficar acuados por aqueles que desejam destruir todas as suas conquistas. Alguns partidos, com suas raposas de plantão, gostariam de ver o PT desaparecer da face da terra. Seria silenciado um poderoso instrumento de consciência e ficaria mais fácil o “jogo” político.

Mas ainda restam bons quadros para que, sem prepotência e com muita humildade, reconheçam que erraram, mas que desejam reiniciar. É muito difícil ver um sonho morrer. Eles já são tão poucos que não vale a pena jogá-los na vala da amargura.