O que diz, realmente, a língua


 Naquela vida que levava, segurando-e-soltando-o-trânsito, ajudando-e-orientando-pessoas, tinha visto de tudo.
Coisas engraçadas, coisas tristes, nada mais, ou melhor, quase nada mais conseguia surpreendê-lo.
Aí, veio aquele japonês nascido em Lisboa.
Chegou, um pingüim embaixo do braço, cara de quem não sabia o que fazer.
- "Boa tarde, seu guarda."
- "Boa tarde, moço."
- "Meu nome é Joaquim."
- "Muito prazer, seu Joaquim."
- "Acontece, pá, que eu estou com um pingüim, aqui debaixo do braço."
"- Estou vendo."- "Pois é. E eu não sei o que faço com ele. O que eu faço com ele, seu guarda?"
Não havia muito o que pensar, a solução estava na cara. Do guarda, claro, não do Joaquim. - "É simples, seu Joaquim, leva ele pro zoológico."
- "Ora, pois."
O japonês Joaquim agradeceu, foi em frente. E o guarda ficou ali naquele trabalho duro de todo dia.
Dias depois, lá estava ele, defendendo tranqüilo (tranqüilo?) o leitinho das crianças, quando a surpresa veio outra vez, na pessoa do japonês Joaquim.
Novamente, com o pingüim debaixo do braço. "Desculpe seu guarda, mas o senhor foi tão gentil comigo, que resolvi vir-lhe perguntar outra vez: o que é que eu faço com ele?"
- "Com ele quem, amigo?"
- "Com o pingüim, pois."
- "Mas você não o levou pro zoológico?"
- "Levei, sim, seu guarda. Pro zoológico, pro Jardim Botânico, pro Ibirapuera, pro playcenter, pro circo, pro cinema... Agora, me diz, seu guarda? Está tudo muito interessante, mas raios me partam, o que é que eu faço com o pingüim?"
(Elóy Simões - Atendimento em Propaganda)