Quem foi que envelheceu?


É preciso reconhecer que temos mecanismos de compensação. Explico-me: nem tudo o que assimilamos é fruto da realidade; em muitos casos, fala mais alta a capacidade de filtrarmos o que nos interessa, preferencialmente, à nossa imagem e semelhança.

É o que acontece com o passar do tempo e o nosso envelhecimento. Sempre temos a impressão de que o tempo acelera para os outros e é generoso para conosco.

Uma amiga que voltou depois de alguns anos olhava, na rua, antigas companheiras e dizia: “mas como a fulana envelheceu!”. No terceiro caso, a pessoa a quem ela confidenciara voltou-se e disse: “mas será que a fulana, olhando para ti, não diz a mesma coisa?”.

No Dia do Amigo, um programa de tv pediu-me uma reflexão sobre as diversas fases da vida e suas relações pessoais e interpessoais.

A infância é o tempo da dependência e da possessividade. Dependemos do outro e queremos exclusividade. Aprendemos, gradativamente, a “compartilhar” as pessoas. Mas não é um processo tão natural assim. Somos induzidos a nos socializarmos e aceitar a perda do tratamento privilegiado.

A adolescência é uma fase fantástica para qualquer estudo. Rica em descobertas, também é o momento de maior instabilidade, fazendo com que precisemos de todos os ombros amigos para suprir nossas carências. Daí decorre os grupos que, pactuamos, “nos acompanharão por toda a vida”.

Esta jura de amor eterno, infelizmente, não sobrevive ao dia da formatura, a uma vaga de emprego fora do nosso torrão de origem, a um casamento e formação de família, a uma transferência.

Muitos passam, então, um bom pedaço de suas vidas lembrando do quanto eram bons os tempos idos. Mas, também, pode-se amadurecer em novas relações, talvez não tão intensas, mas duradouras.

Mas é na chamada melhor idade – a terceira – que temos a chance única de refazer nossas origens. Conforme construímos nossa caminhada – e o final da vida é seu fruto – podemos voltar à infância, novamente dependentes e possessivos, e afastando os outros; ou reativarmos nosso senso de convívio salutar, não com a volta da adolescência, mas tendo tempo para gastar em grupos, atividades esportivas, físicas, sociais.

A escolha é sempre nossa. E vai fazer a diferença, que pode parecer apenas semântica, entre envelhecer e chegar à terceira idade.