Quero colo


Existem atitudes que, na maior parte das vezes, ficam como intenções, silenciosamente nossas, e que não nos sentimos capazes de expressar. Em muitos casos, quando vemos crianças, adolescentes e jovens fazendo, sentimo-nos abismados, porque acreditamos que eles são tão íntimos que mereceriam ficar restritos a uma relação pessoal.

A situação fica pior, ainda, quando os vemos manifestar fisicamente o pensamento.

É o caso do clássico “quero colo”.

Quem já não pensou, alguma vez, em qualquer fase de sua vida, quando todas as agruras, todas as dificuldades pareciam toldar seu horizonte que não queria mais lutar, queria, apenas, um colo? O aconchego de alguém que nos recebesse, afagasse e embalasse para dissipar nossas preocupações?

Um artigo do Luiz Fernando Veríssimo sobre o “bicho” escondido sob a cama lembrou medos, na infância, que não desaparecem, nas outras fases da vida. Apenas se transformam. Podem, até, ser sublimados. Olhados como “bobagens”. Mas existentes.

E apontam para os nossos medos.

O medo da não realização. Aparece quando somos testados: o processo de seleção para estudar, para um trabalho, para uma atividade social.

O medo da perda. Olhar à volta e ver familiares, amigos, conhecidos do dia a dia. E não saber em que ordem eles irão desaparecer. Mas desaparecem. E causam vazios difíceis de serem preenchidos.

O medo da fé. O esforço pela crença é compensado pela paz que pode dar em momentos difíceis. Mas, também pode se transformar em dúvida. E, se não for superada rapidamente, corroer, lançar em desespero.

O medo da carência. Faltar algo que faz parte do nosso dia a dia. Uma pessoa, uma situação, uma sublime atividade de rotina, da qual somente sentimos falta quando deixa de existir.

É então que fica muito forte o desejo, apenas, de um colo. Os mais jovens são corajosos e reivindicam abraços, amassos e beijos. Compensações físicas que, muitas vezes, escandalizam, pois, parece, ultrapassam todos os limites. Para nós outros – pseudos adultos, infelizmente, restam pequenas compensações: um olhar, um afago, uma simples presença.

Que não é a mesma coisa.